Funk do Nada




* Por Marcelo Rock

"É melhor ser modesto e ter um só empregado, do que bancar o rico e passar fome" (Pr 12, 9).

Muitos podem associar o que disse o Rei Salomão aos "funkeiros" que falam de algo abstrato, talvez de um sonho muito distante. Mas...não é bem assim. Diferentemente de outros tempos, o funk como é conhecido hoje é em parte um grito desesperado de uma geração que quer atenção. E em outra, a manifestação sem violência física, porém, violência conceitual e verbal dessa mesma geração que parece tentar mostrar algo. 

É claro que isso não é pensado, mas é transmitido. Ele traduz o grito e oficializa a reclamação. Principalmente o FUNK ostentação e o de cunho sexual obsceno. É como se os jovens estivessem querendo dizer:  “Não nos ignorem, vejam o que estamos fazendo, e escutem o que estamos dizendo!”. O mundo pelo qual lutamos é esse. Com liberdade de expressão, porém, a liberdade é usada sem um aferimento, sem uma regra que faça valer. Mas antes de entrar nisso vamos tentar responder: Porque o FUNK é um grito de desespero por atenção? Gerações e mais gerações sofrem de desamparo, e consequentemente, por não ter, em uma época correta da vida, esse afeto, desconhecem isso, e possuem uma lacuna. São pessoas lacunares, falta-lhes algo e não são estudos, nem ensino, cursos, treinamento, nada disso. É algo que vai muito além, e que provavelmente não será possível de ser reposto. Trata-se de uma falta quase impossível de ser corrigida e compensada. Em outros tempos, essa falta, essa ausência, era preenchida por lutas e reinvindicações, manifestações pela liberdade e contra as guerras. Hoje não temos isso, porque, aparentemente, já conquistamos essa liberdade. Mas, o que provocou isso então?

A família se perdeu nas consequências da busca desenfreada do consumo, e da liberdade inconsequente. Consumo porque, a ideia social á muito tempo é provar pra todo mundo que você é alguém, através daquilo que você tem e não do que você é. Daquilo que você compra, dos lugares que frequenta, e de tudo o que você consome em um sentido amplo. Desde coisas á pessoas. Podemos dizer e aplicar isso, em todos os âmbitos sociais. As pessoas mais cultas querem que percebam e digam que elas são mais cultas, e procuram os mais renomados autores, os livros mais “cabeça”, e tentam MOSTRAR pra todos que são consumidores de cultura elevada. Já outras pessoas, procuram em mesma medida, dentro de seu entendimento, coisas que “agreguem” valor á elas, na busca da autoafirmação do eu posso, eu tenho, eu consumo, portanto “eu sou”. Mas esse “EU SOU”, é explicito através daquilo que se tem e não do que se é de verdade. Quando alguém é, não precisa ostentar mostrar, muito menos provar nada pra ninguém. Mas para perceber isso é necessário tempo e conhecimento do indivíduo, um aprofundamento do ser. Em resumo as pessoas acabam por ceder á essa pressão social e ao mesmo tempo, tentam matar essa fome, encher esse espaço faltante com o que consomem.

O outro ponto é a liberdade inconsequente. Ao mover-se para conquistar o direito de fazer o que se quer, deixamos de nos importar propositalmente com algumas coisas. O sexo livre, por muito tempo, foi símbolo de pessoas bem resolvidas, e que tem poder de escolher o que fazer com suas vidas e com seus corpos. Até ai ok. O problema surge quando essa postura começou a gerar mães que não queriam ser mães ainda. Não nessas condições nem tão pouco com essa idade. Também pais sem uma infraestrutura para oferecer, e avós que acabam ficando com a tarefa de criar os netos. As famílias não são mais nucleares e, portanto, as referencias de pai e mãe morando sob o mesmo teto não existem mais, ou são bem raras. E mesmo morando juntos, o referencial paternal, o modelo de pai, já não serve como referencia. Essa liberdade inconsequente fez nascer gerações de crianças em lares mistos e famílias sem a estrutura tradicional. Pode até ser uma inovação, porém, uma inovação nociva, haja vista o resultado disso.

A segunda afirmação, sobre o FUNK ser uma manifestação de uma geração que quer dizer algo, esta diretamente relacionada ao consumo. Somos todos bombardeados por uma quantidade massiva de propaganda que é apelativa como nunca antes, e que empurra várias gerações para os Shoppings Centers. Porém, nem todos conseguem comprar. Muitos vão para passear, porque não tem muito que fazer, e já que o shopping é o símbolo máximo do universo que é pregado, ou seja, das coisas, do poder e valores que importam hoje, porque não estar ali?

Nesse passeio, o indivíduo se sente incluso socialmente, porém, de forma ilusória. Ali se vê tudo o que se gostaria de ter, mas, não se tem. Isso provoca uma impotência revoltante. Como vou comprar se não tenho dinheiro? E esse comprar, se transforma em algo sagrado, porque, parece oferecer uma atenuação da necessidade, ou do preenchimento da lacuna que falamos antes, o buraco existencial. “... O presente não devolve o troco do passado, sofrimento não é amargura, tristeza não é pecado, lugar de ser feliz não é supermercado...”. Zeca Baleiro.

Ai nesse contexto entra o FUNK, como a voz desses que acham nessa música “subversiva” um modo de se manifestar contra a falta de tudo, na busca de tudo. Tanto para mostrar, ou no caso, ostentar, como na tentativa de preenchimento. É como se estivessem gritando:  “Então é isso, ter as coisas é mais importante, é mais importante que atenção, abraços, afeto, carinho, presença, ok, então vamos lá!”. Ai os valores se invertem, e as coisas passam a ser mais importantes que as pessoas. Afinal, a nova religião imposta pela sociedade atual é: Só se É, quando se TEM, então, quando não se TEM, não se É. É evidente que esse é um grito inconsciente, que vê nesse tipo de música uma tradução do que se quer dizer. Mas ninguém tem essa ciência, porém, os jovens se identificam. Outra pergunta surge: O rap ou hip-hop, o Rock, as manifestações da MPB como, por exemplo, o Tropicalismo, já não eram manifestações musicais que traziam isso em seu bojo? Sim! Porém, são de época diferente, falando a língua e traduzindo o grito de uma geração do passado. E hoje, por incrível que pareça como tudo é facilmente descartável, assim como produtos que consumimos e trocamos, ideias e ideais viajam no tempo indo fazer parte do passado de forma muito mais ligeira do que nunca. 

Algumas pessoas, que viviam em tempos atrás, crendo e lutando por algo, por achar importante, hoje veem os motivos pelos quais lutaram, e até mesmo, as conquistas, serem enxovalhadas e sofrer chacota. Viraram motivo de piada, e não tem a menor importância ou qualquer valor imediato para a juventude atual, isso segundo eles próprios. Esses antigos rebeldes, não conseguem ver o sentido, nem a razão dessa desvalorização por parte desse novo movimento de expressão tão massivo. E isso ocorre ao mesmo tempo em que esse passado recente é revisitado constantemente, de maneira ufanista e ultra nostálgica. 

As mudanças são tão rápidas que não ha tempo de degustar, aproveitar, chegar à exaustão daquilo que se conseguiu ou passou a conhecer ali naquele momento. É como uma criança com um brinquedo seminovo, ele logo perde a graça porque ela ganha outro mais novo, então, o valor em si é dissolvido, diluído e facilmente suplantado com a chegada do supernovo. Mas não somente isso. A desvalorização constante provoca insegurança e medo. Logo se faz necessária, essa revisitação constante, esse “revival” de um tempo aparentemente mais inocente, menos mercenário, quando se acreditava ter mais alma e significado em tudo do que se tem atualmente. Parece que os próprios produtos e a cultura geral da época passada duravam mais tempo ou tinham mais qualidade.

Mas não se trata disso, e sim, do que significavam na época.  Você esperava meses por um filme, eram poucas as músicas e bandas que alcançavam o grande publico. Havia menos divulgação, menor alcance. Quando se conhecia algo, aquilo tinha um valor maior, porque o próprio conhecimento em si, de qualquer coisa, era difícil de obter ou mesmo divulgar. Por isso, parecia ter mais qualidade, mais peso, e quanto mais difícil, mais valor. Nietzsche dizia: “Assim que comunicamos nossos conhecimentos, deixamos de gostar deles o bastante”.A massificação de algo faz com que haja uma subtração de valor. Aquilo se torna vulgar, e consequentemente, para a atual geração, descartável. Isso tudo não é tão recente, podemos dizer que ocorre de 40 anos pra cá. Porém, só esta explodindo em nossa cara, porque além de vivermos em num tempo totalmente novo, apesar dos problemas já serem velhos, provocamos impensadamente o acumulando de diversos sentimentos que foram sendo anestesiados com o tempo através das lutas que achávamos importantes. E foram realmente importantes, porém, hoje vemos que são Vitória de Piro. Será que ainda não estamos preparados para usufruir de nossas próprias conquistas? Ou ainda não conquistamos nada?

Voltando a liberdade que julgamos ser usada indevidamente, e que pela qual lutamos tanto, acredito que no momento em que nos vimos livres, não sabíamos o que fazer com essa liberdade. Então, resolvemos quebrar com os paradigmas e abandonar tudo que nos remetia á um tempo onde essa liberdade não existia, ou não era sentida. Porém, há um agravante nisso. O nosso sonho de liberdade era ir além, e muito além de onde nossos pais foram em todos os sentidos. Mas o mundo que surge diante de nós para ser desbravado, não é o mundo da época de nossos pais. Trata-se de uma realidade muito diferente e uma versão piorada de tempos idos, que nós mesmos construímos com nossos esforços e lutas pela liberdade. Uma realidade onde não conseguimos alçar nosso tão desejado voo, e acabamos como Ícaro, num breve e medíocre planar com asas de cera, numa ascensão muito rápida em direção ao sol. 

O FUNK ri do mundinho idealizado que tentamos criar, ele debocha de tudo: Valores familiares, tabus sexuais, educação, relacionamentos sérios e comprometidos, enfim, todo o comportamento social. Isso tudo sem ao menos se preocupar em colocar uma proposta em pauta, afinal, ele é, em si mesmo, o resumo e a tradução do nada que temos hoje. Apenas coisas, e não pessoas. E se essas coisas são descartáveis, então, não se tem nada.

Kant dizia algo a respeito das coisas e pessoas. Ele afirmava que as coisas são definidas por preço, e pessoas, por dignidade. Então, de uma forma simples, podemos afirmar que quando as pessoas passam a ter um preço, elas viram coisas, e perdem a dignidade. Pior que isso, elas perdem também o significado, a alma. São apenas produtos numa prateleira e esses produtos em que nos transformamos, são descartáveis. De tanto olharmos para o abismo, passamos a fazer parte dele. De tanto consumirmos, nós nos tornamos produtos a serem consumidos também.

Faltam respostas aqui com objetivo de resolver tudo isso. Mas ai é que esta. Nosso tempo parece nos trazer apenas perguntas. O sentimento é de que estamos no limiar de algo, que esta para acontecer, e que irá mudar o curso da história, ou simplesmente, nos forçar a mudar. Uma escolha que devemos fazer, ou então, seremos obrigados a aceitar aquilo que escolherem para nós. Esse novo tempo é uma transgressão de tudo que se entende e do que já vimos. Questiona tudo e apesar de parecer, não repete nada. Desfaz-se de tudo que já se sabe até aqui, e procura ás segas um novo caminho. O FUNK é apenas um sinal disso, uma pequena manifestação de que falta algo, e alguma coisa precisa mudar só não se sabe quem fará isso, e muito menos o que deve ser feito. Trata-se de uma herança que vem desde os séculos XIX e XX, onde vemos o desmoronar das antigas ordens mundiais, mas, sem um novo caminho para trilharmos. Um ciclo sem fim de rupturas e desconstruções. É cômodo de certa forma olhar o passado e ver como grandes crises e questionamentos da sociedade foram sendo resolvidos e os mistérios desvendados, e como isso trouxe mudanças brutais na forma de pensar e agir das pessoas. Porém, estamos no meio desse processo, e o que nos consome é não saber e ao mesmo tempo, saber demais e não nos sentirmos satisfeitos. iniciamos e concluiremos com o Rei Salomão: "A pessoa pode achar que sua conduta é certa, mas é o Senhor quem examina as consciências" (Pr 16, 2).

* Colaborador do Blog

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Não Subestime Quem a Criou

(Fonte:www.kraftfuttermischwerk.de)

"Tudo bem, bem o que vem então é da natureza; mas não subestime então quem a criou." (De Menos Crime  Fogo na Bomba).

A frase acima é extraída do Rap do grupo De Menos Crime intitulada "Fogo na Bomba". Não subestimar quem criou a Cannabis Sativa, é o que o Rapper diz em seus versos. Discriminar quem fuma maconha, na visão do MC, se equivale a subestimar os desígnios de Deus por ter criado a planta. Por motivos óbvios, a musica gerou muita polêmica, pois por muitos foi rechaçada, e para outros, um hino para legalização. 

Nós da Teologia do Gueto resolvemos buscar, por intermédio da Palavra, meios para estabelecer uma relação entre o que fora dito pelo rapper Mikiba no inicio da blogagem, e sua posição como exegese ou falácia. 

Concluímos que a confluência existe! Mas para isso, se faz necessário analisar profundamente e criticamente as Escrituras para absolver o que queremos dizer. Primeiramente, vamos ver o que a Bíblia diz em relação ao vinho. Porque essa reviravolta? Para compreender primeiro o que a Palavra difere de beber eventualmente e saborear a bebida ao pecado da embriaguez. Jesus Ben Sirac, um judeu da diáspora, autor do Livro do Eclesiástico (se faz necessário ter uma Bíblia Católica em mãos para acompanhar o trecho) diz que "O vinho traz vida aos homens, desde que você o beba com moderação. Que vida existe quando falta o vinho? Ele foi criado para alegrar as pessoas. Bebido em tempo certo e na medida certa, o vinho trás gozo para o coração e alegria para a alma" (Eclo 31,27-28). Logo, concluímos que o vinho é algo prazeroso e que, degustado eventualmente e na dosagem certa, trás alegria as pessoas, mas, adverte para seu demasiado uso: "Todavia, bebido em excesso, por vício ou por desafio, o vinho traz amargura para alma. A embriagues aumenta a ira do insensato para sua própria ruína, diminuindo-lhe as forças e provocando ferimentos" (Eclo 31,29-30). O Rei Salomão também alerta sobre seu uso em demasia: "O vinho provoca insolência, e o licor causa barulho: quem se embriaga com eles não chega a ser sábio. Não fique fascinado pelo vinho, vendo sua cor e seu brilho, enquanto escorre suavemente pelo copo. No fim, ele morde como cobra e fere como víbora. Então seus olhos verão coisas estranhas, e sua mente imaginará coisas absurdas" (Pr 20, 1;23,31-33). Que conclusão temos então da bebida alcoólica, e o vinho em especial? Que seu uso não é restrito, e que se usada de maneira correta, pode ser prazeroso e agradável.

Mas voltemos a maconha. No livro do Gênesis, temos um versículo importante na qual as ervas são criações divinas: "Vejam! Eu entrego a vocês todas as ervas que produzem semente e que estão sobre a terra, e todas as árvores em que há frutos que dão semente: tudo isso será alimento para vocês" (Gn 1, 29). Segundo o gênesis, Deus disse todas! Se Ele disse todas, incluímos também a Cannabis Sativa. Porque? A Cannabis Sativa pertence ao grupo das Angiospermas, ou seja, é um vegetal que possui sementes, flores e frutos. Quando Deus diz que será alimento, esse alimento poderia também ser espiritual. Se na sua concepção você achar isso um estapafúrdio, imagine ao cético crer que Jesus se faz vivo na Eucaristia? Um Deus que se faz vivo em um pedaço de pão? É difícil contrapor esse argumento com alguém sem fé. Negar a Cannabis Sativa como uso espiritual e profaná-la, pode se configurar como um erro teológico. Seu uso pelos Rastafári é concluente com as palavras do Criador no Livro do Gênesis. 

Aceito (ou não) a ideia da Cannabis Sativa como obra de Deus, vamos ao Livro dos Salmos: "Tu fazes brotar relva para o rebanho, e plantas úteis para o homem" (Sl 104, 14). Sua "utilidade" é encontrada no tratamento de esclerose múltipla (como no caso famoso de Montrel Williams), Mal de Alzheimer (cujo THD da Cannabis Sativa, de acordo com Scripps Institute, nos EUA, é um elemento de grande auxilio contra a doença), crises convulsivas (uso de Canabidiol) Mal de Parkinson (artigo da revista Journal of Psycopharmacology, da Associação Britânica de Farmacologia, comprova a sua eficácia) e até mesmo, câncer (de acordo com a AACR - American Association for Cancer Research, nos EUA, a Cannabis Sativa desacelera o processo das células cancerígenas), são alguns exemplos de sua "utilidade" ao homem. Se ainda não consegue aceitar a Cannabis Sativa como criação divina, aceite pelo menos que há uma afluência entre o Salmista e as comprovações científicas citadas. 

Para concluir, a Teologia do Gueto não quer, de maneira nenhuma, citar apologias ao uso de maconha ou não. Apenas propomos uma visão teológica de trechos bíblicos e o influxo das informações. Usando os exemplos do vinho, a Cannabis Sativa teria o mesmo efeito, ou seja: usado de maneira incorreta e abusiva, causam muitos malefícios e nada benéfico. O problema em imaginar a maconha como uma criação divina é simples, pois a primeira visão de falar em Cannabis Sativa nos remota ao baseado de maconha, tráfico de drogas e associações pejorativas a seu uso. Vale lembrar que, a Pastoral Carcerária e outros movimentos sociais e de direitos humanos, acreditam que, descriminar o uso de maconha para consumo próprio, como por exemplo, para fumo, diminuiria em 30% a população carcerária do Brasil. Mas isso seria outra história e outra blogagem... 

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Sl 79, 11

(Fonte:Latuff)


A Teologia do Gueto acompanha a situação nos presídios do país e nos posicionamos quanto à crise penitenciária que vem sido veiculada nas grandes mídias e redes sociais como uma noticia tenra. A origem do titulo da blogagem é um apelo, descrito pelo salmista Asaf, quando narrava à situação dos cativos na Babilônia: Chegue a tua presença o gemido do cativo: com teu braço poderoso salva os cativos da morte (Sl 79, 11). Não fazendo falácia teológica, mas a situação dos detentos no Brasil equivale a de um exilado babilônico, privado de seus direitos, liberdade e jogado a própria sorte.       

A Pastoral Carcerária, junto com outras organizações e movimentos sociais, criou a Agenda do Desencarceramento, não vista com auspícios e sim, de maneira pejorativa por conservadores e a classe elitizada do país. Vemos a agenda com bons olhos, haja vista que somos oriundos da periferia e sofremos (sofremos e continuamos sofrendo) com a violência e despreparo da segurança publica que age com repressão e violência, principalmente para com o jovem negro e pobre da periferia que, perpendicularmente, sai de seu bairro distante dos grandes centros em um transporte público caro e de má qualidade, fazendo o itinerário para local de trabalho, estudo ou mesmo lazer, e não ter a certeza de retorno para casa, podendo ser preso ou assassinato, tornando-se estatística dessa macabra matemática classista que preferimos classificar como vitimas do despreparo do sistema.

Voltando a crise penitenciária, vemos que o encarceramento em massa e a violação dos direitos humanos atrás das grades gera o estopim que vemos hoje: as rebeliões e assassinatos nos complexos penitenciários brasileiros teve como proemio a conivência do Estado. A população carcerária do Brasil cresce em progressão geométrica, em contrapartida, o encarceramento maciço e a lentidão no judiciário que analisa de forma aritmética os encarcerados é um dos problemas graves que analisamos, pois essa progressão macabra de encarceramento transforma as penitenciarias e centros de detenção provisória do Brasil em verdadeiros depósitos de seres humanos. A falta de politicas públicas e o abandono do Estado para com o preso, o deixando no ócio e em condições sub-humanas, consequentemente geram rebeliões e assassinatos dentro dos complexos penitenciários, onde em um ambiente hostil, os desentendimentos tornam-se uma constante, e dialogo e mediação na maioria das vezes não é possível. Para essa situação, lembremo-nos de Isaias e o oráculo de Deus: para você abrir os olhos dos cegos, para tirar os presos da cadeia, e do cárcere os que vivem no escuro (Is 42, 7).

A humanidade sempre atrelou justiça com punição. Prisões existem há milênios, e sempre houve fugas, rebeliões e assassinatos. As secretarias de segurança pública e administrações penitenciais tem ciência de que mais presídios e politicas de encarceramento (como por exemplo, redução da maioridade penal), não diminuirão a violência. Como somos cristãos, buscamos observar a situação como Cristo faria. E ai nós indagamos: será que Cristo apoiaria invasões das tropas de choque para agredir os presos rebelados? Acharia conforto o preso ter uma biblioteca com livros em boa condição e um rádio para acompanhar e se informar do mundo externo? Acharia injusto que presos terem cursos profissionalizantes e oficinas para desenvolverem seus talentos e ofícios? Acharia folga os presos terem o mínimo de condições de higiene e alimentação?  Creio que Jesus deixou clara essa mensagem a nós por meio da epístola aos Hebreus: lembrem-se dos presos, como se vocês estivessem na prisão com eles. Lembrem-se dos torturados, pois vocês também tem um corpo (Hb 13, 3). Chegamos a conclusão de que Jesus olharia a atual conjuntura da situação penitenciária em nosso país com uma face macambúzia.

O que buscamos? Um mundo mais justo e equitativo, em que todos possam ter as mesmas oportunidades. Quando Jesus iniciara sua vida pública, voltou a Galileia e pregara em uma sinagoga a profecia de Isaias: O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Notícia aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos (Lc 4, 18. Vide Is 61, 1). Por essa ótica, fica claro que Jesus Cristo busca essa equidade social e um mundo sem grades de ferro. Partilhamos a ideia que, o encarcerado deve ser visto como um ser humano, se ressocializar e ser redimido de seu erro. Para isso, seguimos contra a politica do encarceramento em massa e por uma justiça restaurativa, pelo bem comum e pela dignidade humana. Pois Cristo diz dos que olha com misericórdia aos encarcerados: Eu estava na prisão, e vocês foram me visitar (Mt 25, 36b).

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