Só Acredito Vendo

Foto: Morgue File

*Por Marcelo Rock

“...Se eu não vir o sinal dos cravos em suas mãos, e não puser o meu dedo no lugar dos cravos, e não puser a minha mão no seu lado, de maneira nenhuma o crerei...”. (Jo 20, 25)

Quando São João disse: “... O mundo jaz no maligno...” (1 Jo 5, 19), é porque sabia exatamente o que estava dizendo. Quando Constantino grita: “... Um império, um imperador, uma única religião...”, era o inicio de uma guerra pelo poder e sequestro das almas dentro do campo religioso. Mas não somente isso (o que já é demais), também de todos que não professam a mesma fé. Fé, pra que precisamos dela? Bom, a fé natural é aquela que faz acreditar que ao sentar numa cadeira ela não vai quebrar, e a sobrenatural pra maioria é a que me faz acreditar que a cadeira é sagrada.

A religiosidade de todas as formas parece materializar o que Jesus disse sobre o mal que viria. A cerimonia, o rito, a pajelança, a água, o sangue, o sacrifício, a oferenda, candelabro de 18 hastes, vela colorida, xale, cocar, manto, cachimbo... Tudo coisa inventada por homens, prometendo aproximar o homem do divino. A religião é sempre o desejo humano de fazer por Deus aquilo que Ele em Cristo já fez pelo humano, e na intensão de fazer, de aproximar, acaba separando, afastando, porque injeta santidade em um objeto, e as cerimonias e os objetos passam a ter mais valor e significado que o próprio homem. É o mesmo que contradizer a Palavra quando Jesus disse a mulher da Samaria: “... nem naquele monte, e nem neste, mas os verdadeiros adorarão em espirito...” (Jo 4, 21. 24).

O fato de usar a Bíblia como pen-drive sagrado é o mesmo ritual de qualquer outra religião de usar qualquer livro. Ela é um acessório, um periférico que fica fora de mim, não vem on-boad, e que conecto quando preciso. É a representatividade no objeto e a redução de um deus na mediocridade de uma caixa, de um livro que parece que dita e prevê o que Deus irá fazer, dizer, pensar. Isso é a invenção de outro Deus. E nessa nossa imaginação fértil, esse ser que criamos, não sai uma vírgula fora do que está escrito. Como se esse “manual de instruções” sobre ele, fosse maior do que ele mesmo. Com isso, mediocrizamos Deus e nós mesmos, numa fé que não transcende nada. É como a atrofia bonsai: plantar uma árvore que seria enorme, frondosa, frutífera, em uma pequena caixa. Depois poda-la dia após dia, para que ela seja formatada e limitada á aquele tamanho, simplesmente porque é “bonitinho”.

A formatação das religiões quer sempre justificar tudo pelo simples rito. Aliás, em alguns casos esses ritos não são tão simples, e o mais interessante é que pra uma alma errante, isso é até mais atraente, visto que não tem coragem ou morre de medo de conhecer a liberdade, ou conhecer a verdade que liberta. Não sabe lidar com o livre arbítrio, tem sempre que ter uma regra pra monitorar sua vida, uma obrigatoriedade pra dar chão e ao mesmo tempo, alivio de consciência.

A fé em coisas palpáveis é uma fé infanto-juvenil, que precisa do aparato físico pra se materializar. Porém, a fé nada tem de material, mas sim de espiritual. E quando ela não acontece no plano espiritual, então ela é morta, porque depende de lugares e objetos pra ser praticada, exercida e concretizada. Crer somente parece não ser suficiente, tem que ostentar.
Então precisamos de templos enormes, de estruturas gigantescas, pra acolher a fé, pra exercitar a fé. Quanto maior o templo, mais bonito, maior parece ser a fé num Deus representado pelo concreto, o divino passa a ter cheiro de argamassa. Crença de grandes salões, fé de galeria, paixão de alvenaria, religiosos do ar-condicionado. A fé sobrenatural, espiritual não precisa de livros sagrados e nem de locais ou rituais, ela deve existir no coração, ou seja, na mente, e se materializar por meio das atitudes. Ser melhor ao semelhante, por exemplo; ama-lo ou pelo menos, respeita-lo, independente da fé que professa ou de que lugar do mundo veio se tem dinheiro ou não... Esse é o desafio da fé, e sem essa fé, que não vê nada em sua frente, mas continua acreditando, que não é palpável, que não se materializa em objetos, mas na atitude, essa é a única que pode agradar á algum Deus.

Se você não “comer o livrinho”, ou seja, internalizar essa crença, ela não passa de fé natural. É como aquele tiozinho que só tira o carro da garagem no Domingo, o famoso domingueiro, ou sabatista. Uma fé barbeira, que provoca engarrafamento. Só pratico nos finais de semana, fora disso, não há nada em mim que identifique. Parece que ela não combina com meu dia-a-dia.
No fundo gostamos de ser controlados, parece que com uma formula uma receita, podemos sentir a garantia que tudo vai dar certo no forno que cozinha, que assa o vaso. Mas esquecemos de que não somos a pessoa que faz o vaso, quem faz é o oleiro. Só que não estamos dispostos a deixar que ele trabalhe. Nossa fé vai até a página dois.


O mundo da fé, parece ter se transformado, se esforçado pra cumprir a profecia de Jesus que disse que isso aqui já “tava moiado” desde a época dele. De lá pra cá só piorou, então, justamente aquilo que seria a cura pras nações, virou a doença, ou um vicio, dependência psico-espiritual, um comprimido, a dosagem pra um sustento de seis dias, depois, corro pra tomar mais uma nova dose. Um efeito placebo, num certo lugar, construído pra isso, com objetos na mão e movimentos que provem pra mim mesmo e para os outros que estão me olhando, inclusive pra Deus, que eu estou em comunhão, ufá! Isso tudo dentro de um embrulho bonito, com algo podre dentro. Maligno até a última dose, sem medo de infectar á tudo e á todos, exalando cheiro de enxofre no planeta. Mas num tem problema, a embalagem é bonita, e depois a gente joga um perfume pra disfarçar o cheiro e pronto. O importante é o que as pessoas veem.

* Colaboração para o Blog.

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