O Justo x O Malandro



Por Marcelo Rock* 

O Reino de Deus não é comida nem bebida, e sim justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Rm 15, 17).

Já dizia Bezerra da Silva, que “Malandro é malandro, e mané, é mané”. Quem nunca ouviu falar do jeitinho brasileiro? Acredito que esse estereótipo se estabeleceu como um traço de nossa característica. Muita gente acredita que corrupção é apenas aquela coisa vergonhosa que os políticos e executivos, “distantes de nossa realidade”, cometem contra as instituições governamentais ou privadas.  E que o jeitinho brasileiro seja uma força um talento para sobreviver á tantas mazelas e dificuldades promovidas em nosso país. Uma ginga para ludibriar e saber resolver situações adversas, um poder de adaptação, a dança do malandro, do esperto, da pessoa que se vira e que não desiste nunca.

Uma rápida paradinha na vaga de deficiente, uma ultrapassagem pelo acostamento, colocar o fone de ouvido e fingir estar dormindo para não dar lugar no transporte público, colar na prova, incluir o nome num grupo para ter nota no trabalho sem tê-lo feito, trabalhar apenas quando o chefe esta por perto, perceber que veio dinheiro a mais no troco e não devolver,ter dois números de celular para não ser pego pelo cônjuge... E no meio cristão? Orar mais alto para que todos achem que você é mais fervoroso, sentir raiva e achar que aquela pessoa que não vai á igreja ou falta muito, por não estar em comunhão ou perdeu a fé, acreditar que é mais “crente” ou mais “santo” por "falar" em línguas ou por fazer tudo certinho, ser eficiente ao apontar a falha, o erro, ou exigir justiça, enfim, quando alguém cometer qualquer uma dessas ações citadas acima.

Por que criticamos os corruptos, mas praticamos a corrupção? Será que é falta de oportunidade ou caráter? E se tivéssemos a oportunidade de nos corromper? Será que todos tem um preço? Qual o tamanho da sua ambição?

Pois é, a corrupção tem várias formas, e esta em muitos lugares. É claro que os impactos desses pequenos delitos na sociedade são ínfimos se comparados ás práticas de desvios de milhões de reais dos cofres públicos, de empresas contratadas por meio de alianças, conchavos, acordos, esquemas. E como facilmente pudemos perceber ultimamente, a corrupção não se restringe a um partido político.

Mas e o contrário disso? Você já se sentiu criticado ou mesmo considerado “mané”, babaca, pouco esperto, boca-aberta, bocó, por ser educado, gentil, por não revidar a ofensa, por não ir á forra, por não querer discutir, por deixar que passem na sua frente, por não ser oportunista, por não querer levar vantagem, você já se sentiu um idiota, te chamaram de trouxa ou fraco por essas coisas?

Aquele profeta que não tinha onde recostar a cabeça, aquele homem do povo e das multidões, que curava, mas não queria reconhecimento, o filho de um carpinteiro que se despojou de toda glória e mergulhou em uma “missão suicida”. Sem glamour, sem plumas e paetês, sem holofotes, nem dublê pra horas difíceis, disse o seguinte: “... Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no Reino dos Céus...” (Mt 5, 20).

Não vejo isso como uma ameaça a salvação da alma, mas sim um desafio. Um desafio para sermos melhores, não nos deixar levar pelo ranço e a pressão de uma sociedade com sérios problemas de ética, e caráter. O não conformar-se com este mundo se aplica aqui também, no momento em que você pode ser justo, correto, mesmo quando ninguém esta olhando, e uma justiça que excede, não é uma ação vingativa, revoltada e destrutiva.

E que tal ser melhor hoje, agora? Contribuir para a melhora dos que estão á sua volta naquilo que estiver ao alcance? Quando vemos a injustiça, somos os primeiros a pular com o dedo em riste, por ver pouca justiça se concretizar em nossos dias. Mas isso não é desculpa para sermos incorretos.

Sabemos que a proposta do evangelho é radical. E por vezes já fomos motivo de piada por querer ou fazer o que é certo. Mas esta é a grande luta, a grande resistência. Amar num mundo sem amor, ser justo num mundo sem justiça. O convite de Jesus é de ir além do óbvio, do automático, da zona de conforto, daquela mania de dar um jeitinho em tudo, de querer cortar caminho, de ser malandro.

Na verdade, ser justo, ter caráter, não pode depender do próximo e nem das situações. Sem essa conversa de minha educação depende da sua. Isso é coisa de gente pequena, mesquinha. Queremos um país justo? Mudemos á nós primeiro, não podemos acreditar que ser justo é ser Mané, apesar de ser esta a visão da nossa sociedade.


Jesus nos desafia a crescer como cidadãos, como namorados, maridos, esposas, pais, filhos, irmãos, vizinhos. Mais á frente, ainda no Evangelho de Mateus, Jesus fala sobre a mudança de atitude e a escolha que demos fazer. Fala de um caminho, uma porta estreita onde são poucos que escolhem passar por ela. (Mt 7, 12-14). Esse caminho não tem glamour, “likes”, “self´s”, nem reconhecimento; e poucos compartilham. Mas é o caminho dos que acreditam que é possível uma mudança, uma vez que “o justo viverá pela fé” (Gl 3,11b). 

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