Ressaca Teológica

Foto: MorgueFile

"Teremos luzes, festas, árvores luminosas e presépio. Tudo falso: o mundo continua fazendo guerras. O mundo não entendeu o caminho da paz" (Papa Francisco)

As palavras do Papa Francisco pronunciadas dia 19/11 em homilia na Casa Santa Marta são a encetadura da Teologia do Gueto para reflexão do Natal. Sabemos que a data é oriunda de uma festa pagã, e que é amplamente questionável o nascimento do Messias dia 25 de Dezembro. Mas, esse encetativo introdutório pelo Papa é a visão da Teologia do Gueto sobre o Natal, e a partir disso, vamos refletir não somente sobre o nascimento, mas como o mundo mudou após o primeiro choro de Jesus. 

De acordo com relatos históricos extraídos de uma conjuntura de livros chamada Novo Testamento, sua mãe engravidou antes do casamento, algo inadmissível e punido com morte (Lv 20, 10. Maria, uma adolescente grávida antes do casamento prometida a um homem, seria classificada e rotulada como adúltera, importante refletir sobre esse auspícios social), mas seu corajoso pai adotivo assumiu-o como sendo seu filho. Essa desequilibrada família (mesmo aos moldes contemporâneos de hoje seria considerada desequilibrada), pobre, cuja renda estava restrita a carpintaria, teve o menino em uma manjedoura, na mais completa miséria. Mas não foi "só isso". Em virtude de um decreto da tirania, essa desequilibrada família pediu abrigo a nações estrangeiras, e ali viveram como refugiados. Importante aqui refletirmos sobre o que a Palavra nos ensina sobre os refugiados: "Não oprima o refugiado. Vocês conhecem a vida do refugiado, porque foram refugiados no Egito" (Ex 23, 9). Não é importante refletir sobre o que ocorre como s sírios, por exemplo? A guerra civil Síria assemelha-se com o decreto de Herodes (Mt 2, 16), onde a Sagrada Família migrou de sua terra natal contra sua vontade.  

O menino, mesmo sob as condições adversas, cresceu saudável, e aos 12 anos, de volta a Israel, já incomodava o sistema ditatorial que se instalou em sua pátria: o Império Romano, mesmo nessa tenra idade. O filho do carpinteiro era eloquente, e ao ser questionado, tinha todas as respostas. Isso abalou as estruturas dos reacionários. Com parábolas, ensinava o povo oprimido a pregar a caridade, fraternidade e humildade, o contrário do que o sistema ditador pregava, que era a intolerância religiosa e a cobrança de altas taxas de impostos, gerando miséria e discrepantes classes sociais por Israel.

Uma legião dos grupos sociais excluídos passou a seguir o jovem, que mais tarde, foi acusado de subversivo pelo sistema. Com argumentos pífios, tentaram persuadir o povo, que cansado de tanta opressão, apoiou o jovem revolucionário. Com a argumentação de agitador e de ameaça a ordem pré-estabelecida, o jovem recebeu voz de prisão. Um de seus discípulos, corrompido pelo ato de possuir, foi comprado e entregou o jovem, que estava no auge de seus 33 anos. 

Foi preso e barbaramente torturado nos porões. Resistiu as torturas e manteve sua ideologia de uma sociedade igualitária e justa, mesmo sobe a ameaça de morte. Sem uma base sólida para incriminá-lo, o esquadrão da morte precisava calar o jovem, e os soldados do império o levaram a morte mais humilhante de todas: a crucificação. Carregou sua própria cruz até o abatedouro, recebendo açoitadas, pedradas e pontapés em avenida pública, sendo humilhado por seus algozes de armadura.

Com a carne perfurada com pregos e com uma lança, foi pendurado por horas até as últimas gotas de sangue, suor e lágrimas caírem de seu corpo. Resistindo bravamente o quanto pode. Sustentou a sua ideologia, e calado, sofreu até o último suspiro de vida ao lado de dois prisioneiros políticos, e tendo aos pés da cruz que estava pendurado, sua mãe, que como tantas outras, até a presente data, perderam seus filhos inocentemente, sem antecedentes criminais, sob a falsa acusação de pregar subversão. Todos os que apoiaram sua ideologia, foram presos, torturados e mortos.

Que as pessoas se enchem de altruísmo no Natal, eu já acho o oposto. Natal é o momento em que  a maioria de nós gastamos o 13º salário comprando presentes, roupas novas e comida na mesa, em ampla exploração do capital. Como disse o sapiencial Rei Salomão, pensamos nas filas ou no alto custo, o que importa é comer, vestir-se bem e presentear os outros. Salomão nos alertou que tudo é ilusório (Ecl 1, 2. Vide na íntegra a matéria O Homem de Areia e Vento), e não observamos a chuva que caiu no dia de Natal, e as pessoas sem teto como Jesus que não podem se aquecer, se alimentar, se vestir, e até mesmo se abrigar. Jesus foi enfático ao dizer: "Quando der esmola, que sua mão esquerda não saiba o que a direita está fazendo, de modo que sua esmola seja dada em segredo. E seu Pai, que vê em segredo, compensará você" (Mt 6, 3-4).

O Natal parece uma peça de teatro, um universo paralelo onde sonhamos e nos anestesiamos das dores que a vida nos dá, porém, após o último ato, a peça finda e despertamos do espetáculo de sonhos.  A Teologia do Gueto propõe uma reflexão pós-natal, as consequências, o que Jesus fez por nós. 

Uma boa ressaca teológica de Natal, após embriagar-se com falsas ilusões natalícias...

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Só Acredito Vendo

Foto: Morgue File

*Por Marcelo Rock

“...Se eu não vir o sinal dos cravos em suas mãos, e não puser o meu dedo no lugar dos cravos, e não puser a minha mão no seu lado, de maneira nenhuma o crerei...”. (Jo 20, 25)

Quando São João disse: “... O mundo jaz no maligno...” (1 Jo 5, 19), é porque sabia exatamente o que estava dizendo. Quando Constantino grita: “... Um império, um imperador, uma única religião...”, era o inicio de uma guerra pelo poder e sequestro das almas dentro do campo religioso. Mas não somente isso (o que já é demais), também de todos que não professam a mesma fé. Fé, pra que precisamos dela? Bom, a fé natural é aquela que faz acreditar que ao sentar numa cadeira ela não vai quebrar, e a sobrenatural pra maioria é a que me faz acreditar que a cadeira é sagrada.

A religiosidade de todas as formas parece materializar o que Jesus disse sobre o mal que viria. A cerimonia, o rito, a pajelança, a água, o sangue, o sacrifício, a oferenda, candelabro de 18 hastes, vela colorida, xale, cocar, manto, cachimbo... Tudo coisa inventada por homens, prometendo aproximar o homem do divino. A religião é sempre o desejo humano de fazer por Deus aquilo que Ele em Cristo já fez pelo humano, e na intensão de fazer, de aproximar, acaba separando, afastando, porque injeta santidade em um objeto, e as cerimonias e os objetos passam a ter mais valor e significado que o próprio homem. É o mesmo que contradizer a Palavra quando Jesus disse a mulher da Samaria: “... nem naquele monte, e nem neste, mas os verdadeiros adorarão em espirito...” (Jo 4, 21. 24).

O fato de usar a Bíblia como pen-drive sagrado é o mesmo ritual de qualquer outra religião de usar qualquer livro. Ela é um acessório, um periférico que fica fora de mim, não vem on-boad, e que conecto quando preciso. É a representatividade no objeto e a redução de um deus na mediocridade de uma caixa, de um livro que parece que dita e prevê o que Deus irá fazer, dizer, pensar. Isso é a invenção de outro Deus. E nessa nossa imaginação fértil, esse ser que criamos, não sai uma vírgula fora do que está escrito. Como se esse “manual de instruções” sobre ele, fosse maior do que ele mesmo. Com isso, mediocrizamos Deus e nós mesmos, numa fé que não transcende nada. É como a atrofia bonsai: plantar uma árvore que seria enorme, frondosa, frutífera, em uma pequena caixa. Depois poda-la dia após dia, para que ela seja formatada e limitada á aquele tamanho, simplesmente porque é “bonitinho”.

A formatação das religiões quer sempre justificar tudo pelo simples rito. Aliás, em alguns casos esses ritos não são tão simples, e o mais interessante é que pra uma alma errante, isso é até mais atraente, visto que não tem coragem ou morre de medo de conhecer a liberdade, ou conhecer a verdade que liberta. Não sabe lidar com o livre arbítrio, tem sempre que ter uma regra pra monitorar sua vida, uma obrigatoriedade pra dar chão e ao mesmo tempo, alivio de consciência.

A fé em coisas palpáveis é uma fé infanto-juvenil, que precisa do aparato físico pra se materializar. Porém, a fé nada tem de material, mas sim de espiritual. E quando ela não acontece no plano espiritual, então ela é morta, porque depende de lugares e objetos pra ser praticada, exercida e concretizada. Crer somente parece não ser suficiente, tem que ostentar.
Então precisamos de templos enormes, de estruturas gigantescas, pra acolher a fé, pra exercitar a fé. Quanto maior o templo, mais bonito, maior parece ser a fé num Deus representado pelo concreto, o divino passa a ter cheiro de argamassa. Crença de grandes salões, fé de galeria, paixão de alvenaria, religiosos do ar-condicionado. A fé sobrenatural, espiritual não precisa de livros sagrados e nem de locais ou rituais, ela deve existir no coração, ou seja, na mente, e se materializar por meio das atitudes. Ser melhor ao semelhante, por exemplo; ama-lo ou pelo menos, respeita-lo, independente da fé que professa ou de que lugar do mundo veio se tem dinheiro ou não... Esse é o desafio da fé, e sem essa fé, que não vê nada em sua frente, mas continua acreditando, que não é palpável, que não se materializa em objetos, mas na atitude, essa é a única que pode agradar á algum Deus.

Se você não “comer o livrinho”, ou seja, internalizar essa crença, ela não passa de fé natural. É como aquele tiozinho que só tira o carro da garagem no Domingo, o famoso domingueiro, ou sabatista. Uma fé barbeira, que provoca engarrafamento. Só pratico nos finais de semana, fora disso, não há nada em mim que identifique. Parece que ela não combina com meu dia-a-dia.
No fundo gostamos de ser controlados, parece que com uma formula uma receita, podemos sentir a garantia que tudo vai dar certo no forno que cozinha, que assa o vaso. Mas esquecemos de que não somos a pessoa que faz o vaso, quem faz é o oleiro. Só que não estamos dispostos a deixar que ele trabalhe. Nossa fé vai até a página dois.


O mundo da fé, parece ter se transformado, se esforçado pra cumprir a profecia de Jesus que disse que isso aqui já “tava moiado” desde a época dele. De lá pra cá só piorou, então, justamente aquilo que seria a cura pras nações, virou a doença, ou um vicio, dependência psico-espiritual, um comprimido, a dosagem pra um sustento de seis dias, depois, corro pra tomar mais uma nova dose. Um efeito placebo, num certo lugar, construído pra isso, com objetos na mão e movimentos que provem pra mim mesmo e para os outros que estão me olhando, inclusive pra Deus, que eu estou em comunhão, ufá! Isso tudo dentro de um embrulho bonito, com algo podre dentro. Maligno até a última dose, sem medo de infectar á tudo e á todos, exalando cheiro de enxofre no planeta. Mas num tem problema, a embalagem é bonita, e depois a gente joga um perfume pra disfarçar o cheiro e pronto. O importante é o que as pessoas veem.

* Colaboração para o Blog.

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O Justo x O Malandro



Por Marcelo Rock* 

O Reino de Deus não é comida nem bebida, e sim justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Rm 15, 17).

Já dizia Bezerra da Silva, que “Malandro é malandro, e mané, é mané”. Quem nunca ouviu falar do jeitinho brasileiro? Acredito que esse estereótipo se estabeleceu como um traço de nossa característica. Muita gente acredita que corrupção é apenas aquela coisa vergonhosa que os políticos e executivos, “distantes de nossa realidade”, cometem contra as instituições governamentais ou privadas.  E que o jeitinho brasileiro seja uma força um talento para sobreviver á tantas mazelas e dificuldades promovidas em nosso país. Uma ginga para ludibriar e saber resolver situações adversas, um poder de adaptação, a dança do malandro, do esperto, da pessoa que se vira e que não desiste nunca.

Uma rápida paradinha na vaga de deficiente, uma ultrapassagem pelo acostamento, colocar o fone de ouvido e fingir estar dormindo para não dar lugar no transporte público, colar na prova, incluir o nome num grupo para ter nota no trabalho sem tê-lo feito, trabalhar apenas quando o chefe esta por perto, perceber que veio dinheiro a mais no troco e não devolver,ter dois números de celular para não ser pego pelo cônjuge... E no meio cristão? Orar mais alto para que todos achem que você é mais fervoroso, sentir raiva e achar que aquela pessoa que não vai á igreja ou falta muito, por não estar em comunhão ou perdeu a fé, acreditar que é mais “crente” ou mais “santo” por "falar" em línguas ou por fazer tudo certinho, ser eficiente ao apontar a falha, o erro, ou exigir justiça, enfim, quando alguém cometer qualquer uma dessas ações citadas acima.

Por que criticamos os corruptos, mas praticamos a corrupção? Será que é falta de oportunidade ou caráter? E se tivéssemos a oportunidade de nos corromper? Será que todos tem um preço? Qual o tamanho da sua ambição?

Pois é, a corrupção tem várias formas, e esta em muitos lugares. É claro que os impactos desses pequenos delitos na sociedade são ínfimos se comparados ás práticas de desvios de milhões de reais dos cofres públicos, de empresas contratadas por meio de alianças, conchavos, acordos, esquemas. E como facilmente pudemos perceber ultimamente, a corrupção não se restringe a um partido político.

Mas e o contrário disso? Você já se sentiu criticado ou mesmo considerado “mané”, babaca, pouco esperto, boca-aberta, bocó, por ser educado, gentil, por não revidar a ofensa, por não ir á forra, por não querer discutir, por deixar que passem na sua frente, por não ser oportunista, por não querer levar vantagem, você já se sentiu um idiota, te chamaram de trouxa ou fraco por essas coisas?

Aquele profeta que não tinha onde recostar a cabeça, aquele homem do povo e das multidões, que curava, mas não queria reconhecimento, o filho de um carpinteiro que se despojou de toda glória e mergulhou em uma “missão suicida”. Sem glamour, sem plumas e paetês, sem holofotes, nem dublê pra horas difíceis, disse o seguinte: “... Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no Reino dos Céus...” (Mt 5, 20).

Não vejo isso como uma ameaça a salvação da alma, mas sim um desafio. Um desafio para sermos melhores, não nos deixar levar pelo ranço e a pressão de uma sociedade com sérios problemas de ética, e caráter. O não conformar-se com este mundo se aplica aqui também, no momento em que você pode ser justo, correto, mesmo quando ninguém esta olhando, e uma justiça que excede, não é uma ação vingativa, revoltada e destrutiva.

E que tal ser melhor hoje, agora? Contribuir para a melhora dos que estão á sua volta naquilo que estiver ao alcance? Quando vemos a injustiça, somos os primeiros a pular com o dedo em riste, por ver pouca justiça se concretizar em nossos dias. Mas isso não é desculpa para sermos incorretos.

Sabemos que a proposta do evangelho é radical. E por vezes já fomos motivo de piada por querer ou fazer o que é certo. Mas esta é a grande luta, a grande resistência. Amar num mundo sem amor, ser justo num mundo sem justiça. O convite de Jesus é de ir além do óbvio, do automático, da zona de conforto, daquela mania de dar um jeitinho em tudo, de querer cortar caminho, de ser malandro.

Na verdade, ser justo, ter caráter, não pode depender do próximo e nem das situações. Sem essa conversa de minha educação depende da sua. Isso é coisa de gente pequena, mesquinha. Queremos um país justo? Mudemos á nós primeiro, não podemos acreditar que ser justo é ser Mané, apesar de ser esta a visão da nossa sociedade.


Jesus nos desafia a crescer como cidadãos, como namorados, maridos, esposas, pais, filhos, irmãos, vizinhos. Mais á frente, ainda no Evangelho de Mateus, Jesus fala sobre a mudança de atitude e a escolha que demos fazer. Fala de um caminho, uma porta estreita onde são poucos que escolhem passar por ela. (Mt 7, 12-14). Esse caminho não tem glamour, “likes”, “self´s”, nem reconhecimento; e poucos compartilham. Mas é o caminho dos que acreditam que é possível uma mudança, uma vez que “o justo viverá pela fé” (Gl 3,11b). 

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