Por Uma Hermenêutica Negra



"Pode o negro mudar a cor da sua pele?" (Jr 13, 23)

Pretos e pretas nascem e morrem pretos. Estive auspiciando os comentários pejorativos sobre as missas afro realizadas por dioceses de camaradas nas redes sociais esse final de semana, e pude observar uma falta de exegese bíblica e de conhecimento nas Encíclicas do catolicismo romano, na qual vi a necessidade de blogar sobre. 

No documento SC (Sacrosanctum Concilium), está legitimado o rito afro. Nos parágrafos 38 e 39 está legitimado a adaptação litúrgica: "Mantendo-se substancialmente a unidade do rito romano, dê-se possibilidade às legítimas diversidades e adaptações aos vários grupos étnicos, regiões e povos, sobretudo nas Missões, de se afirmarem, até na revisão dos livros litúrgicos; tenha-se isto oportunamente diante dos olhos ao estruturar os ritos e ao preparar as rubricas; Será da atribuição da competente autoridade eclesiástica territorial, de que fala o parágrafo 22 § 2 (Vide esse tópico se achar necessário), determinar as várias adaptações a fazer, especialmente no que se refere à administração dos sacramentos, aos sacramentais, às procissões, à língua litúrgica, à música sacra e às artes, dentro dos limites estabelecidos nas edições típicas dos livros litúrgicos e sempre segundo as normas fundamentais desta Constituição." (SC 38-39). A musicalidade afro se legitima no mesmo documento, no parágrafo 119: "Em certas regiões, sobretudo nas Missões, há povos com tradição musical própria, a qual tem excepcional importância na sua vida religiosa e social. Estime-se como se deve e dê-se-lhe o lugar que lhe compete, tanto na educação do sentido religioso desses povos como na adaptação do culto à sua índole, segundo os parágrafos 39 e 40. Por isso, procure-se cuidadosamente que, na sua formação musical, os missionários fiquem aptos, na medida do possível, a promover a música tradicional desses povos nas escolas e nas ações sagradas." 

Mas voltando ao inicio do texto, é importante compreender dentro das Sagradas Escrituras o papel de pretos e pretas. Vamos, por meio de uma ordem cronológica, descreverei sobre quem são, o que fizeram e sua importância. 

Na Palavra, toda vez que ler Cush, Cuch, Cusi ou algo similar, entenda-se que está lendo sinônimo de tés escura ou preto. A primeira vez que aparece na Bíblia é em Gn 2, 13, ao descrever o Rio Gion, que cobria a "terra de Cush". Aqui, descreve o local como terra de pretos, logo, associa-se a África. No texto Criar e Evoluir: Tempo Teológico, há uma associação com o Rio Nilo, mas em outro tipo de exegese. Mas continuando, de acordo com o sinólogo e teólogo Richard Wilhelm, Cam (em algumas traduções Cão), o filho de Noé, era o pilar da raça negra após o Dilúvio (Tao Te King - Livro do Sentido da Vida, Pág. 12). Tendo esse alicerce, fácil justificar que seu primeiro filho, Cush (Gn 10, 6) era preto. O neto de Cam, filho de Cuch, Nenrod, segundo as Escrituras, foi o "primeiro valente da terra. Foi um valente caçador aos olhos do Senhor" (Gn 10, 8, 9a). A palavra caçador, é um adjetivo que pode significar aquele que pratica a caça e também a um soldado. Se olharmos por uma segunda ótica, a exegese bíblica pode ser "como Nendod, valente soldado diante do Senhor." Dali surgem também os exímios arqueiros, Lud, filhos de Mesraim (Gn 10, 13). Em Jr 46, 9, há referência deles, mas até mesmo a Bíblia do Peregrino, grande enciclopédia de estudos pastorais, não há referência nenhuma sobre os ludianos na nota de rodapé. A partir da árvore de Gn 10, encontramos referência para outros pretos e pretas, que alguns serão descritos mais a frente. 

Avançando, vemos Moisés presenciar o primeiro ato racista bíblico. Em Nm 12, 1, mostra Aarão e Maria tendo preconceito com sua esposa cuchita durante a peregrinação do deserto. A ira de Deus surge sobre Maria, que imediatamente, ficou isolada por 7 dias do acampamento do povo de Deus com uma doença contagiosa (Nm 12, 9-15). Mas vemos também mulheres com status de Rainha. A Rainha de Sabá (1Rs 10, 1-13 ou 2Cr 9, 1-12), esteve com o Rei Salomão em comitiva, por admirar sua grande sabedoria. Houve uma troca de gentilezas entre rei e rainha de acordo com as Escrituras, e de acordo com o Kebra Negast (livro etíope que conta a dinastia salomônica), afirma que Menelik I, fundador do Império Abissino, foi fruto dessa união real, que muito influencia na cultura etíope. Tanto que desde 980 a.C, os imperadores salomônicos herdam o título de Leão de Judá.  No Sl 68, 32, diz que a "Etiópia estenderá as mãos para Deus", e no Sl 72, 10b, que os reis de Sabá tem 'dons'. O livro do Cântico dos Cânticos (ou Cantares de Salomão) faz referência a cor de pele preta: "Sou morena, mas formosa, ó filhas de Jerusalém, não reparem se eu sou morena, foi o sol que me queimou" (Ct 1, 5-6a). Por ser atribuído ao Rei de Israel, e por ser uma entrega de um homem e mulher embriagados de paixão e extasiados de amor, nos mostra claramente que Menelik I pode ser mesmo fruto dessa relação, com referências nossas (cristãs). 

De acordo com o profeta Isaías, a Etiópia era "uma nação de gente alta e bronzeada, a um povo temido em toda parte, a um povo forte e dominador" (Is 18, 2). Essa referência mostra o porque a Etiópia sempre fora um Estado independente, mas, o fóssil social de achar que a África é um continente pobre e a escravidão durante as grandes navegações, nos faz pensar que ao lermos sobre Ebed-Melec (Jr 38, 7-13), um eunuco etíope, pensamos em um serviçal, escravo. Mas basta analisar com base no versículo de Isaías: será que um rei iria ouvir um simples escravo e seus conselhos, e tiraria o profeta Jeremias do poço? E será que Deus mandaria o próprio profeta dizer para ele (Ebed-Melec), que teria sua vida poupada por ter confiado no Senhor (Jr 39, 16-18)? Não! Ebed-Melec tinha cargo de mais alta hierarquia, e salvou o profeta Jeremias da morte. Ainda dos profetas, temos Sofonias, filho de Cush, ou seja, filho de negros. Profeta de Deus preto, que guiou o "resto de Israel", o povo que não se corrompeu (Sf 9, 12-13).

Já no Novo Testamento, temos passagens fortes e marcantes pelo Evangelista São Lucas no livro dos Atos dos Apóstolos. Em 8, 26-39, ele batiza o etíope ministro da rainha de Candace, e ali inclusive, quebrou a lei do deuteronômio, pois ele era um etíope, e segundo a lei, pessoas com testículos esmagados não pode participar da assembléia de Deus (Dt 23,2). E outra, muito marcante para nós cristãos, está em 13, 1, fazendo referências a Simeão, conhecido como Negro, e Lúcio, da cidade de Cirene. Quanto a cútis de Simeão, não há dívidas, já Lúcio, por ser cireneu (atual Líbia), poderia não ser preto, mas era africano, porém, sua cor de pele não era branca. Quem eram eles? Profetas e mestres da Igreja de Antioquia, juntamente com Paulo e Barnabé. Novamente fazendo referência a Bíblia do Peregrino, nas rodas de rodapé nada de fala dos profetas pretos...

Cheguei ao final da postagem. Essas são algumas referências de pretas e pretos na Bíblia, mas ainda restam duas. Uma delas está em 3 Evangelhos sinóticos Mt, 27, 32; Mc 15, 21; Lc 23, 26: é Simão, da Cidade de Cirene. Assim como disse sobre Lúcio, se ele não era preto, era africano. Na Epístola aos Romanos, São Paulo diz que Rufo foi o eleito do Senhor (Rm 16, 13). Rufo é o filho do cireneu, relatado em Mc 15, 21. Mais um africano (se não preto) como referência bíblica de salvação. 

Mas o mais chocante mesmo, é Jesus Cristo. A figura de pele clara, cabelos encaracolados e olhos claros está totalmente antagônica a Palavra. O profeta Isaías o descreveu assim: "Ele não tinha aparência nem beleza para atrair o nosso olhar, nem simpatia para que pudéssemos apreciá-lo" (Is 53, 2). Porque Isaías o descreve assim? Jesus era preto! Basta ler a revelação de São João no livro do Apocalipse ao descrever Jesus Cristo: "os pés eram como bronze no forno, cor de brasa" (Ap 1, 15) e na visão do trono de Deus, quem sentava nele "parecia uma pedra de jaspe e coralina" (Ap 4, 3). Mais uma vez falando da Bíblia do Peregrino, diz na nota de rodapé que as pedras não parecem demonstrar algo especial, apenas ilustrativo. Se for para ilustrar, a Teologia do Gueto imagina que Jesus seria como um diamante, não como Jaspe...

Voltando a referência de Jeremias no inicio do texto, com o passar dos milênios a igreja fez com que Jesus, preto, mudasse sua cor de pele, ou será que estamos enganados? Tente ler a Sagrada Escritura por uma hermenêutica dos pretos, e tire suas conclusões...

  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS

O Homem de Areia e Vento

Foto: MorgueFile

Por Marcelo Rock*

Um rapaz dorme em sua cama, dentro de uma casa humilde. De repente, ouve o barulho de um sino de igreja ao longe. Ele sabe que é hora de levantar e se prepara para mais uma jornada dura de trabalho no campo. Depois de muitas horas mexendo com a terra, novamente o barulho do sino: hora de ir à missa. Após a missa, retorna a sua casa, para descansar e, então, repetir tudo no dia seguinte. O oficio aprendeu com pai que por sua vez, aprendeu com avô do rapaz, e por muitas gerações, a vida não mudava muito. Sempre a mesma rotina, os mesmos lugares para ir e fazer as mesmas coisas.

Isso parece bem monótono e no mínimo chato. Na sociedade feudal da Idade Média, não existiam muitas aspirações e nem ambições de mudança do status social. A vida era o que sempre foi, quando já se conhecia o próprio papel na sociedade. A palavra indivíduo ou cidadão não existiam, pois isso é um conceito moderno. Nesse ambiente rural, o singular era desprezado, e a pluralidade ou o conjunto de pessoas era valorizado por seu encaixe na maquina que fazia tudo funcionar. Como engrenagens em um relógio, o todo era importante, e o papel de cada um era simplesmente, contribuir para o conjunto continuar em rotação. O camponês produzia, os soldados mantinham a segurança e a ordem, os nobres administravam e o clero dava a benção à tudo isso. Sem anseios, sem crise existencial ou de identidade. Tudo era praticamente pré-definido, pelo menos no consenso geral. Os especialistas da área médica dizem que o mal do século hoje é a depressão. Por que será?

Pois bem, se imagine indo a um supermercado comprar um sabonete. Aparentemente uma tarefa simples, inocente e corriqueira. Ao chegar á seção correspondente, você observa que na gôndola existe uma variedade interminável de opções de sabonetes: sabonete líquido, em barra, sabonete para pele seca, pele oleosa, para pele escura, pele clara, pele sensível, pele normal, com cheiro de flores, cheiro de frutas, cheiro de nozes, aveia, leite, folhas e casca de árvore, com hidratante, sem hidratante, com vitamina, com proteção contra germes, com proteção contra os raios UV... E isso tudo além da variedade de preços. Então, nessa agonia de não saber qual levar, você fecha os olhos, e pega um sabonete qualquer e começa a andar de forma determinada em direção ao caixa, porém com uma única certeza; de que deixou muitas opções para trás. E nesse “extenso” caminho para o caixa, algo lhe consome por dentro, uma pergunta terrível que assombra á todos em nossos dias: será que fiz a escolha certa? Qual profissão eu devo escolher? Vou fazer faculdade de que? Será que não seria melhor abrir um negócio próprio? Com quem casar? Será que essa pessoa vai ser boa para mim? O que ela tem de melhor do que as outras? Devo acreditar na Teologia da Libertação? E a da prosperidade? Qual deve ser minha postura diante da Renovação Carismática? Vou seguir por um viés mais tradicional? u virar ateu de uma vez e parar com essas dúvidas?

Nunca estivemos em tempos tão conturbados, nos quais tudo se questiona. A nossa crise é ter tanta opções e ao mesmo tempo, não sabermos escolher. Existem duas passagens bíblicas que se entrelaçam nesse momento para tentar responder essas questões. A primeira vem da sapiência de Salomão: "Tudo é ilusão e corrida atrás do vento" (Ecl 2, 17). Na Bíblia talvez não exista um livro mais “depressivo” e verdadeiro que este (Eclesiastes). Ele nos passa uma sensação de fim de festa, tipo, deitar e morrer por que agora nada faz sentido, mas... não é bem assim. Se olharmos melhor, ele nos mostre o contrário, ele nos desafia a crescer e enxergar as coisas como são de verdade. O outro vem do próprio Jesus, por intermédio dos evangelistas Mateus e Lucas, que conta sobre o homem que constrói sua casa na areia e o que edifica sobre a rocha (Mt 7, 24-27; Lc 6, 47-49). Acredito que se misturem na ideia de repensarmos quais nossas referências e as nossas bases. Salomão fala da busca por coisas que no fundo no são importantes de verdade, e por isso chama de vaidade. São supérfluas, superficiais, são valores “gasosos” da vida, princípios sem fundamentos, massagem no ego, crendice, superstição, não passam de vento. E mesmo assim, muitas pessoas consomem suas vidas correndo atrás. A palavra vaidade aqui tem peso de conceitos de coisas vãs. Não se trata da aparência externa, mas sim interna. Já em Mateus e Lucas, temos a areia, que funciona de forma parecida com o vento citado em Eclesiastes. Sem valores, sem base, os princípios medíocres, podem simplesmente fazer sua vida desmoronar, pois não passam de areia, que não sustentam uma edificação.

As nossas crises existenciais nas escolhas só existem, quando as nossas buscas são vento, coisas descartáveis, e promovem uma construção instável sobre a areia. Essas crises nos jogam num mundo de incertezas, por não oferecerem paz pra alma, por não resistirem á ação do tempo, por serem insuficientes ou em constante mudança. Abrir mão da vaidade de querer provar que se esta certo, que é melhor que o outro ou que tem mais sucesso, é mais próspero, mais fervoroso, mais crente, mais dedicado, mais espiritual, mais magro, tem um celular mais moderno, viaja pra lugares mais legais, tem mais amigos no Facebook, tem mais mensagens compartilhadas do que simplesmente curtidas. Veja que até nas coisas que deveriam ser boas, dependendo da postura, se transformam em coisas ruins que só refletem o quanto somos egoístas, mesquinhos, e vaidosos.

Essas coisas parecem ser importantes, para um mundo com uma realidade vazia, de coisas que são lindamente embaladas numa ótima propaganda, mas que não oferecem aquilo que prometeram. Formam pessoas feitas de areia e vento. O Apóstolo Paulo nos da a grande dica em sua carta aos Filipenses: "Tudo que é verdadeiro, tudo que é honesto, tudo que é justo, tudo que é puro, tudo o que é amável, tudo que é de boa fama, e se há alguma virtude se há algum louvor, nisso pensai." (Fl 4,8).

Em momento algum ele (Paulo) cita algo fora de nós, mas são atitudes e posturas internas em nossa mente, para dar inicio ao processo de construção com bases sólidas e não perder tempo correndo atrás do vento. E veja, que mesmo na solução de Paulo, não temos uma formula mágica: as formulas não existem, esta é uma proposta real, de um exercício diário. Um mundo melhor, uma realidade melhor, começa em uma mudança interna, começa por nós mesmos. Não espere do governo ou de um líder religioso. Comece você mesmo, agora! As certezas só são encontradas em valores perenes, encarando a vida de forma madura e real.

*Colaboração para o blog

  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS