Revolução e Liberdade

'Verificamos, de fato, que esse homem é uma peste, promove discórdia entre todos os cristãos do mundo inteiro, e é um dos adeptos da Teologia da Libertação. Ele tentou inclusive, profanar a Santa Missa, por isso o excomungamos'. 

A frase acima é um trocadilho da acusação que romanos fizeram diante do Apóstolo Paulo (At 24, 5, 6a). Nada de comparações, tão pouco permear heresias com cristianismo. Apenas quero partilhar com vocês minha experiência.

Era uma tarde de feriado prolongado, 2 de maio de 2014. Estava com dois amigos discutindo o fim do Principado, grupo de Rap Católico no qual fazia parte. Coincidentemente, o celular não parava de enviar mensagens, alertando de comentários na Fan Page que o grupo tinha. Eram aproximadamente de 25 a 30 comentários, num curto período de tempo. Achei estranho, pois o Principado não era um grupo muito conhecido, logo, resolvi verificar.

Eram pessoas que nunca tinha visto na vida, de locais diferentes, como São Bernardo do Campo, Rio de Janeiro, Salvador, Goiânia, dentre outras localidades. Seus comentários eram pejorativos, diminutivos e de fundamento arcaico. Copiavam e colavam posts de internet, links contendo vídeos do padre Paulo Ricardo e a falsa acusação a mim de apóstata comunista. Porque? Por defender a Ação Católica e movimentos como as Ceb's (Comunidades Eclesiais de Base). Lembrando que a Ação Católica foi concretizada por Papa Pio XI em 1935, e as Ceb's, na conferência católica de Medelin (Colômbia) em 1968 ganha o título de ação libertadora, e na conferência de Puebla (México), em 1979, a opção preferencial pelos pobres. Em um debate interminável, por fim, pararam os ataques. Hoje o grupo Principado não existe mais, mas aquele fato precisava de uma resposta.

Longe de mim criar sismas, por isso a Teologia do Gueto busca respostas no Evangelho. De acordo com São Mateus, Jesus deixa claro: "não julguem, para não serem julgados" (Mt 7,1). Eu, como todos os que defendem nossa ideologia, fomos julgados e condenados (segundo eles). Prefiro crer no que disse São Paulo, primeiro à comunidade de Corinto: "irmãos, eu lhes peço, em nome de Jesus Cristo: vivam em harmonia, sem divisões entre vocês. Sejam unidos no mesmo modo de pensar e no mesmo propósito"(1 Cor 1, 10); segundo a seu discípulo Timóteo: "quero, portanto, que os homens rezem em todo lugar, erguendo mãos santas, sem discussões" (1 Tm 2, 8). Ao falar mal de um cristão, estou falando mal de um irmão, de minha família. Seguir caminho diferente do seu significa traçar um caminho mais longo ou mais próximo do destino final. É equivalente a torcida de um clube de futebol: os torcedores organizados ficam na arquibancada, outros ficam na numerada, os elitizados compram camarotes. Cada um torce de seu jeito, em momentos cruciais da partida, uns vaiam e outros cantam, mas ao apito final, na vitória ou na derrota, o sentimento partilhado pelos torcedores, independente da sua posição no estádio, é o mesmo. A Igreja Católica é, e deve ser linear, mas não é e nem deve ser homogênea.

No meio do fervor das eleições de 2014, uma necromancia da fé surgiu. Padres santificaram até mesmo Tancredo Neves, para que ele intercedesse durante as eleições presidenciais. Durante esse momento e os 50 anos do golpe militar que se completaram em 31 de março do ano passado, resolvi dar uma resposta aos ataques.

Ai surgiu o Rap Revolução e Liberdade. Revolução para criar uma vicissitude nos dias atuais, onde fragmentos da Ditadura Militar no Brasil, como encarceramento em massa, prática de tortura e autos de resistência existem. Cristãos (independente da placa), tem que se perguntar o que Jesus Cristo acharia ao ver as torturas nas delegacias do DOPS e nos DOI-CODI, ou as ocultações de cadáver do Esquadrão da Morte? De acordo com São Tomás de Aquino, o melhor método e justo para ir contra uma tirania, é formar uma oposição politica e tentar destruí-lo (Tomás de Aquino - O Governo da Cidade no De Regno), e com respaldo do Papa Paulo VI, quando todos os meios de negociações pacíficas terminar, o povo pode pegar em armas para se defender (Gaudium Et Epes, 78). Liberdade, pelo que foi profetizado por Isaías (Is 61, 1-2), que Jesus leu na Sinagoga: "O Espírito Do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para anunciar a Boa Noticia aos pobres. Enviou-me para anunciar a libertação aos presos e a recuperação da vista aos cegos, para dar liberdade aos oprimidos" (Lc 4, 18-19). Oprimidos são todos, pretos ou brancos, homens, mulheres ou homossexuais, que arbitrariamente foram torturados, censurados e presos, apenas por pensarem diferente da ditadura. Tendo como base esses santos homens, e a Palavra de Deus, compus o Rap.

Foto: Arquivo Pessoal

Nomes como Dom Helder Câmara são lembrados nos versos. São Tiago nos disse: "Tomem os profetas que falaram em nome do Senhor, como exemplo de sofrimentos suportados com paciência." (Tg 5,10), e outros, como os Freis Betto, Fernando e Ivo, como a epístola aos Hebreus nos ensina: "Lembrem-se dos presos, como se vocês estivessem presos com eles" (Hb 13, 3a), e não poderia deixar de citar, Frei Tito de Alencar Lima: "Lembrem-se dos torturados, pois vocês também tem um corpo" (Hb 13, 3b).

No inicio, usei as palavras de São Lucas do livro dos Atos para descrever como o tribunal de Cesárea julgara São Paulo. Acusaram-o por provocar discórdia entre os judeus, por seguir a "seita cristã" e por profanar o culto pagão. No meu caso, foram os tribunais virtuais dos fiscais da fé, a Neo Inquisição do século XXI, que me acusou de heresia.

Por fim, quero deixar claro que não quero ser um John Wycliffe ou John Huss, mas a Teologia do Gueto busca o amor ao próximo, e fatos históricos devem ser do conhecimento de todos. Revolução e Liberdade!!!

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