Meditação das Vulgívagas

Foto: MorgueFile

"Ainda que seus pecados sejam vermelhos como púrpura, ficarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como escarlate, ficarão como a lã" (Is 1,  18).

O profeta Isaías alertou o povo. Caminhar com retidão é uma forma de purificação dos pecados. Logo, a preposição "dos" nos dá ideia que que o pecado se dá de várias maneiras. Indo de encontro ao oráculo de Deus a Isaías, o pronome "seus" individualiza o pecado, a cruz que cada um carrega, e a conjunção "seja" e o superlativo do vermelho escarlate, mostra que temos dimensões aos pecados. São Paulo nos diz: "cada um de nós prestará contas de si mesmo a Deus" (Rm 14, 12). Essa reflexão individual de salvação nos leva a fazer uma reflexão sobre um tabu. Quero convidá-los a embarcar nessa viagem comigo, mas para isso, encham seus balões de oxigênio libertário, para que não precisamos emergir e respirar ar positivista, pois vamos além da plataforma continental e adentrar além da escuridão dos taludes da Palavra.

Nas formações pastorais, de qualquer movimento ou mesmo nas celebrações e missas, a Palavra de Deus é sucinta e objetiva. Algumas se estendem um pouco, outras são mais curtas, mas eu, particularmente, nunca vi uma leitura onde se lia a árvore genealógica de alguém. Portanto, quero chamar atenção para a arvore genealógica de Jesus, em especial, de duas pessoas. No Evangelho de São Mateus, vemos em Mt 1, 3, citar Tamar, e em Mt 1, 5, Raab. Latentes para boa parte dos cristãos, vamos tornar cognoscível suas histórias e sua participação em nossa fé cristã.

A história de Tamar está em Gn 38. Tamar foi uma mulher escolhida por Judá para ser esposa de seu filho primogênito. Segundo a Palavra, Her, o primogênito, desagradou a Deus (sem detalhes do que foi esse desagrado) e veio a morrer. Segundo a lei (Dt 25, 5), o cunhado tem que assumir o lugar. Onã, porém, não aceitava o fato de sua descendência se atrelar ao irmão mais velho, e não ejaculava em Tamar durante as relações. Teve o mesmo destino fatídico do irmão. Judá, ao perder dois filhos, prometeu a Tamar seu filho mais novo, Sela, quando tivesse idade adulta, porém, essa fora uma falsa promessa, pois se precaveu ao perder dois filhos. Tamar, com o passar dos anos, viu que Judá não entregou seu filho mais novo para ela, e decidiu por si só, fazer justiça. Tirou o véu de viúva e, já sabendo seu itinerário, ficou na estrada esperando-o passar. Judá, agora viúvo, pensou ver uma meretriz. Teve relações com ela sem saber, e lhe concedeu filhos gêmeos. Judá reconheceu seu erro para com seu filho caçula e Tamar, e Farés, um dos frutos dessa relação, também aparece na árvore genealógica de Cristo.

Já Raab era uma messalina que aparece no livro de Josué (Js 2; 6, 22-25). Antes do cerco de Jericó, Josué enviou dois homens secretamente para estudar o território da cidade para fazer a estratagema bélica. Pernoitaram no prostíbulo de Raab e foram descobertos, porém, ela os escondeu, salvando suas vidas dos homens do rei, e por conseguinte, fez um pedido, pois temia o Deus de Israel. Pediu para que os homens de Josué, que após tomarem Jericó, pouparem sua vida e a de seus familiares. O acordo foi cumprido posteriormente por Josué, que antes de incendiar a saquear a cidade, retirou ela e seus familiares, que ficaram seguros e tiveram sua vida como despojo.

Os mais ortodoxos vão ser diretos e condenar as prostitutas de hoje. Todos, pelo menos alguma vez na vida, vimos alguém com a Bíblia na mão nos aglomerados urbanos (calçadões, estações ferroviárias, pontos de ônibus e praças públicas, por exemplo) e comparando mulheres de roupa curta com amásias, usando fragmentos bíblicos como "Qualquer pecado que o homem comete fica fora do corpo. Mas quem se entrega á prostituição peca contra o próprio corpo" (1 Cor 6, 18) ou "as obras da carne são conhecidas: união ilegítima, impureza, libertinagem" (Gl 5, 19). São Paulo, ao alertar Corinto e Gálatas, orienta o homem para a retidão que mencionei no inicio do texto, onde meditamos Isaías, e o próprio Apóstolo, após o tremor da força do Espírito em oração quanto estava na prisão com Silas, disse ao carcereiro, que ao ver as celas e grilhões dos presos abertos, queria se matar: "acredite no Senhor e será salvo, você e os de sua casa" (At 16, 31). Podemos ver claramente que, condenar a pécora é um equívoco, pois Raab é lembrada na epístola aos Hebreus com carinho, e vista como exemplo de fé a ser seguido: "Pela fé, a prostituta Raab acolheu pacificamente os espiões, e não morreu com os rebeldes" (Hb 11, 31), e pelo Apóstolo São Tiago, sua obra foi posta a frente de sua posição de rascoeira, e faz uma indagação com ironia: "Vejam portanto, que a pessoa é justificada pelas obras, e não somente pela fé. Do mesmo modo, Raab, a prostituta, não foi justificada pelas obras, dando acolhida aos mensageiros e fazendo-os voltar por outro caminho? De fato, como o corpo sem o sopro de vida é morto, assim também a fé sem obras é morta" (Tg 2, 24-26).

A sexualidade é associada a depravação na maioria das vezes, principalmente na Sagrada Escritura. As passagens de atentado ao pudor violento como o que ocorreu com Dina (Gn 34, 2) e a concubina do levita que foi estuprada e morta (Jz 20, 5), assim como casos de incesto, entre pais e filhos, como com Ló, que após a destruição de Sodoma e Gomorra, foi embriagado e teve relação com suas filhas (Gn 19, 30-37) ou entre irmãos, como o caso de Amnon que estuprou sua irmã Tamar (não a nora de Judá), ambos filhos de Davi (2Sm 13, 1-22), são usados a exaustão como forma de aberração sexual. É um erro associar ações depravadas como essa a Raab e Tamar, pois elas são sim, ações condenáveis, diferentemente do que elas realizaram por fé. Outra abominação que descortinou-se há séculos em igrejas de denominações cristãs é o adultério. Sempre uma prática vista por uma ótica varonil, complanam-o a prostituição e condenação as mulheres, mas vemos que, por vezes, a mulher é acusada injustamente, como a bela Suzana (Dn 13. Por tratar-se de um trecho apócrifo em livros protestantes, vide em uma Bíblia Católica). Nos Evangelhos de São Lucas e São João, Jesus rechaça essa forma de rasourar adultério à prostituição, e vai na contra-mão desse módico feminino. Em São Lucas,  acolhe a "pecadora" que adentrou na casa do fariseu, dizendo: "Os muitos pecados dela serão perdoados, pois ela muito amou. Mas aquele a quem pouco foi perdoado, pouco ama. Sua fé a salvou, vá em paz" (Lc 7, 47.50) e em São João, salvou a mulher pega em flagrante em prevaricação, e iriam apedreja-la. A salvífica frase "quem de vocês não tiver pecado, atire a primeira pedra" (Jo  8, 7b) dispensa mais acréscimos.

Mas, voltando as vulgívagas, o que dizer do mito e lenda Sansão? Após a morte de sua esposa, se vingou dos filisteus assassinos e foi declarado juiz de Israel. Ao seguir sua jornada, em seu primeiro ato, a Bíblia narra da seguinte maneira: "Sansão partiu para cidade de Gaza, viu ai uma prostituta e foi para casa dela" (Jz 16, 1). Ainda no livro dos Juízes, outra história interessante de um juiz. Jefté era filho de Galaad, fruto de uma relação inter conjugal dele com uma cortesã (Jz 11, 1). Seus irmãos, filhos da esposa de Galaad diziam: "Não haverá pra você parte nenhuma da herança da casa de nosso pai, pois você é filho de outra mulher" (Jz 11-2).

A Teologia do Gueto sempre caminha com a máxima de amar o próximo. Nesse caso, recomendamos aos que condenam as prostitutas, que emanem a elas amor e misericórdia, e não se esqueçam do que foi recomendado por Jesus Cristo: "Hipócrita! Tire primeiro a trave de seu olho, e então você verá bem para tirar o cisco do olho de seu irmão" (Mt 7,5).

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