Dinheiro Miserável


Por Marcelo Rock*

"(...) Eu jamais cobicei de ninguém, nem prata, nem ouro, nem vestes. Vocês mesmos sabem que estas minhas mãos trabalharam para as necessidades minhas e dos que estavam comigo. Em tudo lhes mostrei que, trabalhando assim, é preciso ajudar os fracos, recordando as palavras do Senhor Jesus que disse: 'Há mais felicidade em dar do que receber'" (At 20, 33-35).

Por que será que as palavras de Paulo direcionada aos anciões de Éfeso, narrada por São Lucas no livro dos Atos dos Apóstolos, não logra êxito nos dias de hoje? Quando dizem que o dinheiro não é tudo duvidamos, já que se vive em um mundo movido por ele. Como já diria o cantor rei do brega Falcão: "O dinheiro não é tudo, mas é 100%..."

Ver acontecendo manifestações populares nas ruas, ou a misérias dos que estão á margem da sociedade econômica é lugar comum. Afinal, a desigualdade está ai para todo mundo ver. Mas imaginar um grupo de jovens quebrando e saqueando lojas num país de primeiro mundo, é meio estranho. Algo parecido com os “rolezinhos” que envolviam crime em alguns shoppings de São Paulo e sua região metropolitana.

Apesar da enorme diferença de que um deles aconteceu na distância de um país de primeiro mundo, com a moeda mais forte da economia global, a libra, os motivos são muito próximos. A falta de dinheiro não é pior que a falta de sentido ou proposito na vida. Alias, aproveitando-se disso os consultores da autoajuda e os gurus da prosperidade dizem que tudo começa com a vontade, o desejo. A pessoa traça um objetivo e o persegue. Com isso, pregam que o alvo maior da vida é ser milionário e que a conquista do sucesso é a conquista da prosperidade financeira tendo o dinheiro como um fim em si mesmo.

Foto: MorgueFile

Mas a simples motivação de ter dinheiro é vazia. Caso contrário, as pessoas mais felizes e realizadas seriam as pessoas com salários mais altos ou milionários que ainda não foram pegos numa intervenção da polícia federal. Também nesse pensamento de que o dinheiro é o sentido da vida, podemos ver os que tentam cortar caminho para consegui-lo de forma mais fácil. Temos crianças e adolescentes que sonham com uma vida de jogador de futebol reconhecido em um grande clube. Ou mesmo as pessoas que desejam ardentemente ganhar o prêmio máximo da loteria.

A quantidade de jogadores que morrem no anonimato com salário mínimo e os que voltam a ser pobres em poucos anos após receber o premio milionário da loteria também provam que a afirmação do inicio do texto está correta.

Uma variação bastante popular é a conquista do poder. Muita gente acredita que a combinação entre dinheiro e poder é perfeita. Outro engano grave. Haja vista nossos políticos. Essa mistura é veneno para alma. A falta de nobreza e o excesso de cobiça no coração do politico trava o desenvolvimento do país. Nos alertou São Paulo na epístola a Timóteo: "(...) A raiz de todos os males é o dinheiro (1 Tm 6, 10)".

Enfim, em nenhuma dessas afirmações anteriores concluímos que o dinheiro resolve, traz sentido, salva as pessoas ou um país da falência. O enaltecer do sucesso financeiro ou do reconhecimento apenas através do dinheiro pela sociedade é que provoca o mal maior.

As almas vazias acreditam que se encherão de sentido e significado quando a conta no banco tiver saldo alto e na mão um cartão de crédito internacional sem limite. Os jovens frustrados dos rolezinhos ou dos saques às lojas em Londres, veem a sua frente o que não podem ter, e como a sociedade se resume a isso, em seu limitado universo, eles querem ter e fazer parte dela à força. Ainda usando a atemporalidade de São Paulo a seu discípulo Timóteo: "Se tivermos o que comer e com o que nos vestir, que nos contentemos com isso" (1Tm 5, 8), vemos que judeus, gentios e anciãos contemporâneos não entenderam que o dinheiro é miserável.

Eis ai o grande desafio do Evangelho: mostrar que somos miseráveis, se só temos dinheiro...

*Colaboração para o blog

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