Criar e Evoluir: Tempo Teológico

A Criação de Adão - Michelangelo

"E Deus viu tudo que havia feito, e tudo era muito bom" (Gn 1, 31a).

A Bíblia está longe de ser um livro científico. Com mensagem atemporal, fora usada de maneiras bem diferentes, com épocas difusas, e com objetivos distintos. Mas uma coisa permanece um hiato: a contestação não apenas do criador, mas da criação.

Quanto ao criacionismo, algumas figuras históricas como o bispo anglicano James Usser (1581-1656) merecem destaque. No século XVII, com seu livro The Annals of The World, um folha maço de mais de 1600 páginas, usou fontes bíblicas e outras pertinentes (na visão do bispo irlandês) e concluiu que a Terra foi criada em 23 de Outubro de 4004 a.C. Tal colocação foi respeitada e aceita no mundo acadêmico, até que os naturalistas Georges-Louis Leclerc (1707-1788) e James Hutton (1726-1797), trouxeram a tona as falhas de Usser. Por meio de fósseis, foi possível comprovar a vicissitude do planeta, e que seriam necessários milhões de anos para que acontecessem, não apenas 6000 anos. Indagações como a de Xenófanes de Colófon nos idos 560 a.C, sobre como conchas estariam localizadas no alto de uma montanha, fizeram com que o proêmio do Paraíso de Ussher fosse amplamente questionado.  Outros, como o economista britânico e pastor anglicano Thomas Robert Malthus (1766-1834), analisaram que a população mundial crescia de forma geométrica, e a produção mundial de alimentos de forma aritmética. Sendo assim, não se poderia alimentar a humanidade de forma equitativa, e seus seguidores, os malthusianos, iam contra o que Deus afirmara na criação: "sejam fecundos, multipliquem-se" (Gn 1, 28b), pois usavam a castidade e o controle da natalidade para impedir uma explosão demográfica, que posteriormente, ocasionaria miséria e fome no mundo. Malthus, assim como Ussher, foi rechaçado, como o fez Ernest Gellner (1925-1995), filósofo tcheco que condenou a teoria como preconceituosa, pois priva os pobres e os culpa exclusivamente da miséria e fome no mundo, não levando em conta fatores como o desenvolvimento tecnológico, refutando os métodos malthusianos, e pondo abaixo seus cálculos com o aumento da produção de alimentos, e afirma que quem produz miséria não é o pobre, e sim, ele (pobre), é uma consequência. Por fim, não menos importante, o erro clássico com o astrofísico italiano Galileu Galilei (1564-1642), condenando a viver até o fim de seus dias numa masmorra, por ter a vida salva pelos tribunais da inquisição católica. Por piedade? Não. Por temor à morte, Galilei negou o heliocentrismo, a teoria astronômica que o sol é o centro do sistema solar, que a igreja condenava com penas nada brandas, como tortura e pena de morte, por enforcamento ou queimado vivo.

Erros como os citados acima foram a munição para evolucionistas. O naturalista britânico Charles Darwin (1809-1882) teve caminho livre para desenvolver com propriedade a Teoria da Evolução das Espécies. Todavia, não se pode condenar por completo o criacionismo. O geógrafo brasileiro Milton Santos (1926-2001), em uma de suas celebres frases disse: "A força da alienação vem da fragilidade dos indivíduos, que apenas conseguem identificar o que nos separa e não nos une". A frase do saudoso professor foi o combustível para eu buscar uma convergência entre ciência e religião.

Mas a pergunta é... como? Já fui em muitos locais, mas vi que falar de Deus não é tão simples. Um neurologista, por exemplo, estuda o cérebro humano, mas tem ferramentas para isso; um cardiologista tem aulas práticas com um coração de verdade, e um teólogo...qual objeto de estudo para um teólogo? Fica difícil falar de algo que nossos 5 sentidos não percebem. Como falar de Deus se não se pode nem ao menos provar a criação? A uma pessoa no estado atamancado ou enferma buscando um milagre divino, é simples, pois a exasperação nos faz crer num Cristo metafísico, e torna-se mais simples falar de Deus. A Teologia do Gueto buscou respostas para as pessoas que não se encontram nesse estado, a ponto de entrar em histeria coletiva com os "controladores" do Espírito Santo de Deus. 

No Gênesis, na narrativa da criação, Deus disse: "que fervilhem das águas um fervilhar de seres vivos, e aves revoem sobre a terra debaixo do firmamento do céu" (Gn 1, 20). Se formos ver de acordo com o tempo geológico, a Bíblia não segue um fundamento lógico, uma vez que as criaturas marinhas surgiram no Pré-Cambriano, há pelo menos 670 milhões de anos, e as primeiras aves, só surgiram no período Jurássico, há 144 milhões de anos aproximadamente. Uma infinidade de espécies diferentes surgiram entre os seres pluricelulares e as aves. A Bíblia errou? De acordo com o tempo geológico, no período Carbonífero (de 360 a 290 milhões de anos atrás), havia a Meganeura Moyni, uma espécie de libélula gigante de 70 cm (suas dimensões são consequência da alta oxigenação do período), mas... o que isso tem haver com as aves? As Testemunhas de Jeová em sua exegese bíblica, dizem assim: 'O termo hebraico ʽohf, derivado do verbo “voar”, aplicava-se a todas as criaturas aladas ou voadoras. O termo não somente abrangia todas as aves , inclusive codornizes e também aves necrófagas, mas também podia ser aplicado aos insetos alados, que estão incluídos entre as “pululantes" criaturas aladas' (Estudo Perspicaz das Escrituras, Volume I - Aará a Escrita, 1988, p.278). Logo, quando Deus diz 'ohf, pode muito bem descrever uma Meganeura. Nesse caso, a cronologia com a ciência não está de modo tão semoto.

Na sequencia da Criação, Deus diz: "Que a terra faça sair seres vivos por espécie: animais domésticos, bichinhos e feras da terra por espécie" (Gn 1, 24). Animais domésticos? Como assim? O que entendemos por animais domésticos são os de estimação, ou seja, cachorros, gatos, passarinhos etc. A Bíblia errou? Como que após a Meganeura iriam surgir cães e gatos? Ainda no período Carbonífero existiram os sinapsídeos, que eram o grupo ancestral dos mamíferos. Sua árvore filogenética passa por muitas transições, que vão da extinta Caseasuária aos mamíferos. Isso mesmo! Os gatos, cachorros, porquinhos da Índia e etc. Os animais domésticos que Deus em Gênesis cita podem ser sinapsídeos? Ora, e porque não?

As feras da terra creio que não poderiam ser outro tipo de criatura. Seguindo uma ordem cronológica, fera pode muito bem ser as criaturas da Era Mesozoica (de 250 a 65 milhões de anos atrás), os gigantes que habitaram a terra, os dinossauros. Ao lermos 'fera', inconscientemente lembramos de leões, tigres e ursos, mas...imaginou ler a Bíblia dentro por essa perspectiva, de Deus criando dinossauros? Tão surreal...

E os bichinhos? Deus os menciona em outra partes: "bichinhos do solo" (Gn 1, 25) e "bichinhos que remexem sobre a terra" (Gn 1, 26). Quem poderiam ser?  Pela sequencia da Palavra, em Gn 1, 24, temos: animais domésticos, bichinhos e feras. Animais domésticos citamos que Deus pode mencionar os sinapsídeos, e as feras, os dinossauros. Entretanto, e os bichinhos? Também no Carbonífero surgiram os primeiros répteis, e os bichinhos do solo ou que se remexem sobre a terra podem ser por exemplo, o Hylonomus (rato da floresta), o mais antigo réptil encontrado até hoje (há 315 milhões de anos), com o tamanho de apenas 20 cm. Mas, para não entrar em contradição, vamos a etimologia da palavra réptil. Originaria do latin Repetile, que significa, a grosso modo, rastejar, ou ser que rasteja, descreve bem as características do pequeno Hylonomus, que vivia no solo, escondendo-se de seus predadores, e era, literalmente, "um bichinho do solo que rastejava".

A sequencia de Gênesis é propínquo aos períodos Siluriano, Carbonífero e Jurássico, por exemplo, "Os grandes animais do mar", que Deus descreve em Gn 1, 21, podem muito bem ser os tubarões, que surgiram no período Siluriano, há 400 milhões de anos; do Carbonífero temos as "aves" do céu Meganeuras; os animais domésticos seriam os sinapsídeos; os bichinhos do solo o pequeno Hylonomus e no Jurássico, as feras seriam os dinossauros. A sequencia da narração da criação segue uma forma sequencial, semelhante ao tempo geológico,

E quanto aos humanos? "E Deus criou o ser humano a sua imagem, à imagem de Deus ele o criou" (Gn 1, 27). O registro hominídeo mais antigo, o Sahelantropus Tchadensis, fora encontrado no atual Chade, e viveu por volta de 7 milhões de anos atrás. Após a narrativa da criação, Deus criou o Jardim do Eden (Gn 2, 8), que era cortado por 4 rios: um deles, chamado Gion, cobria toda a terra de Cush (Gn 2, 13). A palavra Cush na Bíblia, tem significado de negro, ou aquele de tez escura. O antigo reino de Cush ficava onde hoje localiza-se os atuais Sudão e Sudão do Sul, e por ter sido encontrado no Chade, os Sahelantropus Tchadensis poderiam ter vivido no Sudão também. Trazendo para os dias atuais, um braço do Eden pode ter sido o Rio Nilo, e uma parte do Paraíso estar localizada na África, uma vez que o Nilo corta o Sudão, a antiga terra dos Cuchitas. Aqui, a proximidade com a ciência também se evidencia, pois ambos mostram que a humanidade surgiu geograficamente no mesmo local, o continente africano.

Você deve estar se perguntando agora, se os períodos e eras duram milhões de anos, como Deus fez tudo em dias? A Palavra diz: "pois mil anos diante de Seus olhos, são como o dia de ontem que passou"(Sl 90, 4), e o Apóstolo Pedro, fala algo muito semelhante: "para o Senhor, um dia é como mil anos, e mil anos como um dia" (2Pd 3, 8). Portanto, o tempo de Deus não é algo cronológico ou preciso, e um dia poderia durar um EON (divisão de tempo por eras). Por exemplo: "Veio o entardecer e veio o amanhecer, foi o primeiro dia." (Gn 1, 5b) No EON Hadeano (há 4,5 bilhões de anos), a terra era uma bola incandescente de fogo, que com a queda de um asteroide gigante, originou a Lua. Esse dia narrado por Deus pode ser um EON? "E ao firmamento Deus chamou céu" (Gn 1, 8). O céu que Deus faz menção, não pode ser por sua coloração azul, e as estrelas ao entardecer, a atmosfera terrestre? A diminuição de amônia e metano e a abundância de nitrogênio e vapor d'água somadas a fotossíntese do EON Arqueano (há 700 milhões de anos), não seriam um dia para Deus? 

São Paulo disse a comunidade de Corinto: "por meio do Espírito, a um é dada uma palavra de sabedoria; e a outro uma palavra da ciência, segundo o mesmo Espírito" (1 Cor 12, 8). Pretensioso dizer que ciência e religião caminharão juntos, mas creio na frase de Milton Santos, de não se alienar, é identificar-se com o que nos une.  Por uma hermenêutica biológica e com afã, é possível inserir Deus na criação e evolução, e desenvolver, por essa perspectiva, um Tempo Teológico. Claro, não tratam-se de afirmações, somente uma reflexão por parte da Teologia do Gueto...

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