Criar e Evoluir: Tempo Teológico

A Criação de Adão - Michelangelo

"E Deus viu tudo que havia feito, e tudo era muito bom" (Gn 1, 31a).

A Bíblia está longe de ser um livro científico. Com mensagem atemporal, fora usada de maneiras bem diferentes, com épocas difusas, e com objetivos distintos. Mas uma coisa permanece um hiato: a contestação não apenas do criador, mas da criação.

Quanto ao criacionismo, algumas figuras históricas como o bispo anglicano James Usser (1581-1656) merecem destaque. No século XVII, com seu livro The Annals of The World, um folha maço de mais de 1600 páginas, usou fontes bíblicas e outras pertinentes (na visão do bispo irlandês) e concluiu que a Terra foi criada em 23 de Outubro de 4004 a.C. Tal colocação foi respeitada e aceita no mundo acadêmico, até que os naturalistas Georges-Louis Leclerc (1707-1788) e James Hutton (1726-1797), trouxeram a tona as falhas de Usser. Por meio de fósseis, foi possível comprovar a vicissitude do planeta, e que seriam necessários milhões de anos para que acontecessem, não apenas 6000 anos. Indagações como a de Xenófanes de Colófon nos idos 560 a.C, sobre como conchas estariam localizadas no alto de uma montanha, fizeram com que o proêmio do Paraíso de Ussher fosse amplamente questionado.  Outros, como o economista britânico e pastor anglicano Thomas Robert Malthus (1766-1834), analisaram que a população mundial crescia de forma geométrica, e a produção mundial de alimentos de forma aritmética. Sendo assim, não se poderia alimentar a humanidade de forma equitativa, e seus seguidores, os malthusianos, iam contra o que Deus afirmara na criação: "sejam fecundos, multipliquem-se" (Gn 1, 28b), pois usavam a castidade e o controle da natalidade para impedir uma explosão demográfica, que posteriormente, ocasionaria miséria e fome no mundo. Malthus, assim como Ussher, foi rechaçado, como o fez Ernest Gellner (1925-1995), filósofo tcheco que condenou a teoria como preconceituosa, pois priva os pobres e os culpa exclusivamente da miséria e fome no mundo, não levando em conta fatores como o desenvolvimento tecnológico, refutando os métodos malthusianos, e pondo abaixo seus cálculos com o aumento da produção de alimentos, e afirma que quem produz miséria não é o pobre, e sim, ele (pobre), é uma consequência. Por fim, não menos importante, o erro clássico com o astrofísico italiano Galileu Galilei (1564-1642), condenando a viver até o fim de seus dias numa masmorra, por ter a vida salva pelos tribunais da inquisição católica. Por piedade? Não. Por temor à morte, Galilei negou o heliocentrismo, a teoria astronômica que o sol é o centro do sistema solar, que a igreja condenava com penas nada brandas, como tortura e pena de morte, por enforcamento ou queimado vivo.

Erros como os citados acima foram a munição para evolucionistas. O naturalista britânico Charles Darwin (1809-1882) teve caminho livre para desenvolver com propriedade a Teoria da Evolução das Espécies. Todavia, não se pode condenar por completo o criacionismo. O geógrafo brasileiro Milton Santos (1926-2001), em uma de suas celebres frases disse: "A força da alienação vem da fragilidade dos indivíduos, que apenas conseguem identificar o que nos separa e não nos une". A frase do saudoso professor foi o combustível para eu buscar uma convergência entre ciência e religião.

Mas a pergunta é... como? Já fui em muitos locais, mas vi que falar de Deus não é tão simples. Um neurologista, por exemplo, estuda o cérebro humano, mas tem ferramentas para isso; um cardiologista tem aulas práticas com um coração de verdade, e um teólogo...qual objeto de estudo para um teólogo? Fica difícil falar de algo que nossos 5 sentidos não percebem. Como falar de Deus se não se pode nem ao menos provar a criação? A uma pessoa no estado atamancado ou enferma buscando um milagre divino, é simples, pois a exasperação nos faz crer num Cristo metafísico, e torna-se mais simples falar de Deus. A Teologia do Gueto buscou respostas para as pessoas que não se encontram nesse estado, a ponto de entrar em histeria coletiva com os "controladores" do Espírito Santo de Deus. 

No Gênesis, na narrativa da criação, Deus disse: "que fervilhem das águas um fervilhar de seres vivos, e aves revoem sobre a terra debaixo do firmamento do céu" (Gn 1, 20). Se formos ver de acordo com o tempo geológico, a Bíblia não segue um fundamento lógico, uma vez que as criaturas marinhas surgiram no Pré-Cambriano, há pelo menos 670 milhões de anos, e as primeiras aves, só surgiram no período Jurássico, há 144 milhões de anos aproximadamente. Uma infinidade de espécies diferentes surgiram entre os seres pluricelulares e as aves. A Bíblia errou? De acordo com o tempo geológico, no período Carbonífero (de 360 a 290 milhões de anos atrás), havia a Meganeura Moyni, uma espécie de libélula gigante de 70 cm (suas dimensões são consequência da alta oxigenação do período), mas... o que isso tem haver com as aves? As Testemunhas de Jeová em sua exegese bíblica, dizem assim: 'O termo hebraico ʽohf, derivado do verbo “voar”, aplicava-se a todas as criaturas aladas ou voadoras. O termo não somente abrangia todas as aves , inclusive codornizes e também aves necrófagas, mas também podia ser aplicado aos insetos alados, que estão incluídos entre as “pululantes" criaturas aladas' (Estudo Perspicaz das Escrituras, Volume I - Aará a Escrita, 1988, p.278). Logo, quando Deus diz 'ohf, pode muito bem descrever uma Meganeura. Nesse caso, a cronologia com a ciência não está de modo tão semoto.

Na sequencia da Criação, Deus diz: "Que a terra faça sair seres vivos por espécie: animais domésticos, bichinhos e feras da terra por espécie" (Gn 1, 24). Animais domésticos? Como assim? O que entendemos por animais domésticos são os de estimação, ou seja, cachorros, gatos, passarinhos etc. A Bíblia errou? Como que após a Meganeura iriam surgir cães e gatos? Ainda no período Carbonífero existiram os sinapsídeos, que eram o grupo ancestral dos mamíferos. Sua árvore filogenética passa por muitas transições, que vão da extinta Caseasuária aos mamíferos. Isso mesmo! Os gatos, cachorros, porquinhos da Índia e etc. Os animais domésticos que Deus em Gênesis cita podem ser sinapsídeos? Ora, e porque não?

As feras da terra creio que não poderiam ser outro tipo de criatura. Seguindo uma ordem cronológica, fera pode muito bem ser as criaturas da Era Mesozoica (de 250 a 65 milhões de anos atrás), os gigantes que habitaram a terra, os dinossauros. Ao lermos 'fera', inconscientemente lembramos de leões, tigres e ursos, mas...imaginou ler a Bíblia dentro por essa perspectiva, de Deus criando dinossauros? Tão surreal...

E os bichinhos? Deus os menciona em outra partes: "bichinhos do solo" (Gn 1, 25) e "bichinhos que remexem sobre a terra" (Gn 1, 26). Quem poderiam ser?  Pela sequencia da Palavra, em Gn 1, 24, temos: animais domésticos, bichinhos e feras. Animais domésticos citamos que Deus pode mencionar os sinapsídeos, e as feras, os dinossauros. Entretanto, e os bichinhos? Também no Carbonífero surgiram os primeiros répteis, e os bichinhos do solo ou que se remexem sobre a terra podem ser por exemplo, o Hylonomus (rato da floresta), o mais antigo réptil encontrado até hoje (há 315 milhões de anos), com o tamanho de apenas 20 cm. Mas, para não entrar em contradição, vamos a etimologia da palavra réptil. Originaria do latin Repetile, que significa, a grosso modo, rastejar, ou ser que rasteja, descreve bem as características do pequeno Hylonomus, que vivia no solo, escondendo-se de seus predadores, e era, literalmente, "um bichinho do solo que rastejava".

A sequencia de Gênesis é propínquo aos períodos Siluriano, Carbonífero e Jurássico, por exemplo, "Os grandes animais do mar", que Deus descreve em Gn 1, 21, podem muito bem ser os tubarões, que surgiram no período Siluriano, há 400 milhões de anos; do Carbonífero temos as "aves" do céu Meganeuras; os animais domésticos seriam os sinapsídeos; os bichinhos do solo o pequeno Hylonomus e no Jurássico, as feras seriam os dinossauros. A sequencia da narração da criação segue uma forma sequencial, semelhante ao tempo geológico,

E quanto aos humanos? "E Deus criou o ser humano a sua imagem, à imagem de Deus ele o criou" (Gn 1, 27). O registro hominídeo mais antigo, o Sahelantropus Tchadensis, fora encontrado no atual Chade, e viveu por volta de 7 milhões de anos atrás. Após a narrativa da criação, Deus criou o Jardim do Eden (Gn 2, 8), que era cortado por 4 rios: um deles, chamado Gion, cobria toda a terra de Cush (Gn 2, 13). A palavra Cush na Bíblia, tem significado de negro, ou aquele de tez escura. O antigo reino de Cush ficava onde hoje localiza-se os atuais Sudão e Sudão do Sul, e por ter sido encontrado no Chade, os Sahelantropus Tchadensis poderiam ter vivido no Sudão também. Trazendo para os dias atuais, um braço do Eden pode ter sido o Rio Nilo, e uma parte do Paraíso estar localizada na África, uma vez que o Nilo corta o Sudão, a antiga terra dos Cuchitas. Aqui, a proximidade com a ciência também se evidencia, pois ambos mostram que a humanidade surgiu geograficamente no mesmo local, o continente africano.

Você deve estar se perguntando agora, se os períodos e eras duram milhões de anos, como Deus fez tudo em dias? A Palavra diz: "pois mil anos diante de Seus olhos, são como o dia de ontem que passou"(Sl 90, 4), e o Apóstolo Pedro, fala algo muito semelhante: "para o Senhor, um dia é como mil anos, e mil anos como um dia" (2Pd 3, 8). Portanto, o tempo de Deus não é algo cronológico ou preciso, e um dia poderia durar um EON (divisão de tempo por eras). Por exemplo: "Veio o entardecer e veio o amanhecer, foi o primeiro dia." (Gn 1, 5b) No EON Hadeano (há 4,5 bilhões de anos), a terra era uma bola incandescente de fogo, que com a queda de um asteroide gigante, originou a Lua. Esse dia narrado por Deus pode ser um EON? "E ao firmamento Deus chamou céu" (Gn 1, 8). O céu que Deus faz menção, não pode ser por sua coloração azul, e as estrelas ao entardecer, a atmosfera terrestre? A diminuição de amônia e metano e a abundância de nitrogênio e vapor d'água somadas a fotossíntese do EON Arqueano (há 700 milhões de anos), não seriam um dia para Deus? 

São Paulo disse a comunidade de Corinto: "por meio do Espírito, a um é dada uma palavra de sabedoria; e a outro uma palavra da ciência, segundo o mesmo Espírito" (1 Cor 12, 8). Pretensioso dizer que ciência e religião caminharão juntos, mas creio na frase de Milton Santos, de não se alienar, é identificar-se com o que nos une.  Por uma hermenêutica biológica e com afã, é possível inserir Deus na criação e evolução, e desenvolver, por essa perspectiva, um Tempo Teológico. Claro, não tratam-se de afirmações, somente uma reflexão por parte da Teologia do Gueto...

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Meditação das Vulgívagas

Foto: MorgueFile

"Ainda que seus pecados sejam vermelhos como púrpura, ficarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como escarlate, ficarão como a lã" (Is 1,  18).

O profeta Isaías alertou o povo. Caminhar com retidão é uma forma de purificação dos pecados. Logo, a preposição "dos" nos dá ideia que que o pecado se dá de várias maneiras. Indo de encontro ao oráculo de Deus a Isaías, o pronome "seus" individualiza o pecado, a cruz que cada um carrega, e a conjunção "seja" e o superlativo do vermelho escarlate, mostra que temos dimensões aos pecados. São Paulo nos diz: "cada um de nós prestará contas de si mesmo a Deus" (Rm 14, 12). Essa reflexão individual de salvação nos leva a fazer uma reflexão sobre um tabu. Quero convidá-los a embarcar nessa viagem comigo, mas para isso, encham seus balões de oxigênio libertário, para que não precisamos emergir e respirar ar positivista, pois vamos além da plataforma continental e adentrar além da escuridão dos taludes da Palavra.

Nas formações pastorais, de qualquer movimento ou mesmo nas celebrações e missas, a Palavra de Deus é sucinta e objetiva. Algumas se estendem um pouco, outras são mais curtas, mas eu, particularmente, nunca vi uma leitura onde se lia a árvore genealógica de alguém. Portanto, quero chamar atenção para a arvore genealógica de Jesus, em especial, de duas pessoas. No Evangelho de São Mateus, vemos em Mt 1, 3, citar Tamar, e em Mt 1, 5, Raab. Latentes para boa parte dos cristãos, vamos tornar cognoscível suas histórias e sua participação em nossa fé cristã.

A história de Tamar está em Gn 38. Tamar foi uma mulher escolhida por Judá para ser esposa de seu filho primogênito. Segundo a Palavra, Her, o primogênito, desagradou a Deus (sem detalhes do que foi esse desagrado) e veio a morrer. Segundo a lei (Dt 25, 5), o cunhado tem que assumir o lugar. Onã, porém, não aceitava o fato de sua descendência se atrelar ao irmão mais velho, e não ejaculava em Tamar durante as relações. Teve o mesmo destino fatídico do irmão. Judá, ao perder dois filhos, prometeu a Tamar seu filho mais novo, Sela, quando tivesse idade adulta, porém, essa fora uma falsa promessa, pois se precaveu ao perder dois filhos. Tamar, com o passar dos anos, viu que Judá não entregou seu filho mais novo para ela, e decidiu por si só, fazer justiça. Tirou o véu de viúva e, já sabendo seu itinerário, ficou na estrada esperando-o passar. Judá, agora viúvo, pensou ver uma meretriz. Teve relações com ela sem saber, e lhe concedeu filhos gêmeos. Judá reconheceu seu erro para com seu filho caçula e Tamar, e Farés, um dos frutos dessa relação, também aparece na árvore genealógica de Cristo.

Já Raab era uma messalina que aparece no livro de Josué (Js 2; 6, 22-25). Antes do cerco de Jericó, Josué enviou dois homens secretamente para estudar o território da cidade para fazer a estratagema bélica. Pernoitaram no prostíbulo de Raab e foram descobertos, porém, ela os escondeu, salvando suas vidas dos homens do rei, e por conseguinte, fez um pedido, pois temia o Deus de Israel. Pediu para que os homens de Josué, que após tomarem Jericó, pouparem sua vida e a de seus familiares. O acordo foi cumprido posteriormente por Josué, que antes de incendiar a saquear a cidade, retirou ela e seus familiares, que ficaram seguros e tiveram sua vida como despojo.

Os mais ortodoxos vão ser diretos e condenar as prostitutas de hoje. Todos, pelo menos alguma vez na vida, vimos alguém com a Bíblia na mão nos aglomerados urbanos (calçadões, estações ferroviárias, pontos de ônibus e praças públicas, por exemplo) e comparando mulheres de roupa curta com amásias, usando fragmentos bíblicos como "Qualquer pecado que o homem comete fica fora do corpo. Mas quem se entrega á prostituição peca contra o próprio corpo" (1 Cor 6, 18) ou "as obras da carne são conhecidas: união ilegítima, impureza, libertinagem" (Gl 5, 19). São Paulo, ao alertar Corinto e Gálatas, orienta o homem para a retidão que mencionei no inicio do texto, onde meditamos Isaías, e o próprio Apóstolo, após o tremor da força do Espírito em oração quanto estava na prisão com Silas, disse ao carcereiro, que ao ver as celas e grilhões dos presos abertos, queria se matar: "acredite no Senhor e será salvo, você e os de sua casa" (At 16, 31). Podemos ver claramente que, condenar a pécora é um equívoco, pois Raab é lembrada na epístola aos Hebreus com carinho, e vista como exemplo de fé a ser seguido: "Pela fé, a prostituta Raab acolheu pacificamente os espiões, e não morreu com os rebeldes" (Hb 11, 31), e pelo Apóstolo São Tiago, sua obra foi posta a frente de sua posição de rascoeira, e faz uma indagação com ironia: "Vejam portanto, que a pessoa é justificada pelas obras, e não somente pela fé. Do mesmo modo, Raab, a prostituta, não foi justificada pelas obras, dando acolhida aos mensageiros e fazendo-os voltar por outro caminho? De fato, como o corpo sem o sopro de vida é morto, assim também a fé sem obras é morta" (Tg 2, 24-26).

A sexualidade é associada a depravação na maioria das vezes, principalmente na Sagrada Escritura. As passagens de atentado ao pudor violento como o que ocorreu com Dina (Gn 34, 2) e a concubina do levita que foi estuprada e morta (Jz 20, 5), assim como casos de incesto, entre pais e filhos, como com Ló, que após a destruição de Sodoma e Gomorra, foi embriagado e teve relação com suas filhas (Gn 19, 30-37) ou entre irmãos, como o caso de Amnon que estuprou sua irmã Tamar (não a nora de Judá), ambos filhos de Davi (2Sm 13, 1-22), são usados a exaustão como forma de aberração sexual. É um erro associar ações depravadas como essa a Raab e Tamar, pois elas são sim, ações condenáveis, diferentemente do que elas realizaram por fé. Outra abominação que descortinou-se há séculos em igrejas de denominações cristãs é o adultério. Sempre uma prática vista por uma ótica varonil, complanam-o a prostituição e condenação as mulheres, mas vemos que, por vezes, a mulher é acusada injustamente, como a bela Suzana (Dn 13. Por tratar-se de um trecho apócrifo em livros protestantes, vide em uma Bíblia Católica). Nos Evangelhos de São Lucas e São João, Jesus rechaça essa forma de rasourar adultério à prostituição, e vai na contra-mão desse módico feminino. Em São Lucas,  acolhe a "pecadora" que adentrou na casa do fariseu, dizendo: "Os muitos pecados dela serão perdoados, pois ela muito amou. Mas aquele a quem pouco foi perdoado, pouco ama. Sua fé a salvou, vá em paz" (Lc 7, 47.50) e em São João, salvou a mulher pega em flagrante em prevaricação, e iriam apedreja-la. A salvífica frase "quem de vocês não tiver pecado, atire a primeira pedra" (Jo  8, 7b) dispensa mais acréscimos.

Mas, voltando as vulgívagas, o que dizer do mito e lenda Sansão? Após a morte de sua esposa, se vingou dos filisteus assassinos e foi declarado juiz de Israel. Ao seguir sua jornada, em seu primeiro ato, a Bíblia narra da seguinte maneira: "Sansão partiu para cidade de Gaza, viu ai uma prostituta e foi para casa dela" (Jz 16, 1). Ainda no livro dos Juízes, outra história interessante de um juiz. Jefté era filho de Galaad, fruto de uma relação inter conjugal dele com uma cortesã (Jz 11, 1). Seus irmãos, filhos da esposa de Galaad diziam: "Não haverá pra você parte nenhuma da herança da casa de nosso pai, pois você é filho de outra mulher" (Jz 11-2).

A Teologia do Gueto sempre caminha com a máxima de amar o próximo. Nesse caso, recomendamos aos que condenam as prostitutas, que emanem a elas amor e misericórdia, e não se esqueçam do que foi recomendado por Jesus Cristo: "Hipócrita! Tire primeiro a trave de seu olho, e então você verá bem para tirar o cisco do olho de seu irmão" (Mt 7,5).

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Revolução e Liberdade

'Verificamos, de fato, que esse homem é uma peste, promove discórdia entre todos os cristãos do mundo inteiro, e é um dos adeptos da Teologia da Libertação. Ele tentou inclusive, profanar a Santa Missa, por isso o excomungamos'. 

A frase acima é um trocadilho da acusação que romanos fizeram diante do Apóstolo Paulo (At 24, 5, 6a). Nada de comparações, tão pouco permear heresias com cristianismo. Apenas quero partilhar com vocês minha experiência.

Era uma tarde de feriado prolongado, 2 de maio de 2014. Estava com dois amigos discutindo o fim do Principado, grupo de Rap Católico no qual fazia parte. Coincidentemente, o celular não parava de enviar mensagens, alertando de comentários na Fan Page que o grupo tinha. Eram aproximadamente de 25 a 30 comentários, num curto período de tempo. Achei estranho, pois o Principado não era um grupo muito conhecido, logo, resolvi verificar.

Eram pessoas que nunca tinha visto na vida, de locais diferentes, como São Bernardo do Campo, Rio de Janeiro, Salvador, Goiânia, dentre outras localidades. Seus comentários eram pejorativos, diminutivos e de fundamento arcaico. Copiavam e colavam posts de internet, links contendo vídeos do padre Paulo Ricardo e a falsa acusação a mim de apóstata comunista. Porque? Por defender a Ação Católica e movimentos como as Ceb's (Comunidades Eclesiais de Base). Lembrando que a Ação Católica foi concretizada por Papa Pio XI em 1935, e as Ceb's, na conferência católica de Medelin (Colômbia) em 1968 ganha o título de ação libertadora, e na conferência de Puebla (México), em 1979, a opção preferencial pelos pobres. Em um debate interminável, por fim, pararam os ataques. Hoje o grupo Principado não existe mais, mas aquele fato precisava de uma resposta.

Longe de mim criar sismas, por isso a Teologia do Gueto busca respostas no Evangelho. De acordo com São Mateus, Jesus deixa claro: "não julguem, para não serem julgados" (Mt 7,1). Eu, como todos os que defendem nossa ideologia, fomos julgados e condenados (segundo eles). Prefiro crer no que disse São Paulo, primeiro à comunidade de Corinto: "irmãos, eu lhes peço, em nome de Jesus Cristo: vivam em harmonia, sem divisões entre vocês. Sejam unidos no mesmo modo de pensar e no mesmo propósito"(1 Cor 1, 10); segundo a seu discípulo Timóteo: "quero, portanto, que os homens rezem em todo lugar, erguendo mãos santas, sem discussões" (1 Tm 2, 8). Ao falar mal de um cristão, estou falando mal de um irmão, de minha família. Seguir caminho diferente do seu significa traçar um caminho mais longo ou mais próximo do destino final. É equivalente a torcida de um clube de futebol: os torcedores organizados ficam na arquibancada, outros ficam na numerada, os elitizados compram camarotes. Cada um torce de seu jeito, em momentos cruciais da partida, uns vaiam e outros cantam, mas ao apito final, na vitória ou na derrota, o sentimento partilhado pelos torcedores, independente da sua posição no estádio, é o mesmo. A Igreja Católica é, e deve ser linear, mas não é e nem deve ser homogênea.

No meio do fervor das eleições de 2014, uma necromancia da fé surgiu. Padres santificaram até mesmo Tancredo Neves, para que ele intercedesse durante as eleições presidenciais. Durante esse momento e os 50 anos do golpe militar que se completaram em 31 de março do ano passado, resolvi dar uma resposta aos ataques.

Ai surgiu o Rap Revolução e Liberdade. Revolução para criar uma vicissitude nos dias atuais, onde fragmentos da Ditadura Militar no Brasil, como encarceramento em massa, prática de tortura e autos de resistência existem. Cristãos (independente da placa), tem que se perguntar o que Jesus Cristo acharia ao ver as torturas nas delegacias do DOPS e nos DOI-CODI, ou as ocultações de cadáver do Esquadrão da Morte? De acordo com São Tomás de Aquino, o melhor método e justo para ir contra uma tirania, é formar uma oposição politica e tentar destruí-lo (Tomás de Aquino - O Governo da Cidade no De Regno), e com respaldo do Papa Paulo VI, quando todos os meios de negociações pacíficas terminar, o povo pode pegar em armas para se defender (Gaudium Et Epes, 78). Liberdade, pelo que foi profetizado por Isaías (Is 61, 1-2), que Jesus leu na Sinagoga: "O Espírito Do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para anunciar a Boa Noticia aos pobres. Enviou-me para anunciar a libertação aos presos e a recuperação da vista aos cegos, para dar liberdade aos oprimidos" (Lc 4, 18-19). Oprimidos são todos, pretos ou brancos, homens, mulheres ou homossexuais, que arbitrariamente foram torturados, censurados e presos, apenas por pensarem diferente da ditadura. Tendo como base esses santos homens, e a Palavra de Deus, compus o Rap.

Foto: Arquivo Pessoal

Nomes como Dom Helder Câmara são lembrados nos versos. São Tiago nos disse: "Tomem os profetas que falaram em nome do Senhor, como exemplo de sofrimentos suportados com paciência." (Tg 5,10), e outros, como os Freis Betto, Fernando e Ivo, como a epístola aos Hebreus nos ensina: "Lembrem-se dos presos, como se vocês estivessem presos com eles" (Hb 13, 3a), e não poderia deixar de citar, Frei Tito de Alencar Lima: "Lembrem-se dos torturados, pois vocês também tem um corpo" (Hb 13, 3b).

No inicio, usei as palavras de São Lucas do livro dos Atos para descrever como o tribunal de Cesárea julgara São Paulo. Acusaram-o por provocar discórdia entre os judeus, por seguir a "seita cristã" e por profanar o culto pagão. No meu caso, foram os tribunais virtuais dos fiscais da fé, a Neo Inquisição do século XXI, que me acusou de heresia.

Por fim, quero deixar claro que não quero ser um John Wycliffe ou John Huss, mas a Teologia do Gueto busca o amor ao próximo, e fatos históricos devem ser do conhecimento de todos. Revolução e Liberdade!!!

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Dinheiro Miserável


Por Marcelo Rock*

"(...) Eu jamais cobicei de ninguém, nem prata, nem ouro, nem vestes. Vocês mesmos sabem que estas minhas mãos trabalharam para as necessidades minhas e dos que estavam comigo. Em tudo lhes mostrei que, trabalhando assim, é preciso ajudar os fracos, recordando as palavras do Senhor Jesus que disse: 'Há mais felicidade em dar do que receber'" (At 20, 33-35).

Por que será que as palavras de Paulo direcionada aos anciões de Éfeso, narrada por São Lucas no livro dos Atos dos Apóstolos, não logra êxito nos dias de hoje? Quando dizem que o dinheiro não é tudo duvidamos, já que se vive em um mundo movido por ele. Como já diria o cantor rei do brega Falcão: "O dinheiro não é tudo, mas é 100%..."

Ver acontecendo manifestações populares nas ruas, ou a misérias dos que estão á margem da sociedade econômica é lugar comum. Afinal, a desigualdade está ai para todo mundo ver. Mas imaginar um grupo de jovens quebrando e saqueando lojas num país de primeiro mundo, é meio estranho. Algo parecido com os “rolezinhos” que envolviam crime em alguns shoppings de São Paulo e sua região metropolitana.

Apesar da enorme diferença de que um deles aconteceu na distância de um país de primeiro mundo, com a moeda mais forte da economia global, a libra, os motivos são muito próximos. A falta de dinheiro não é pior que a falta de sentido ou proposito na vida. Alias, aproveitando-se disso os consultores da autoajuda e os gurus da prosperidade dizem que tudo começa com a vontade, o desejo. A pessoa traça um objetivo e o persegue. Com isso, pregam que o alvo maior da vida é ser milionário e que a conquista do sucesso é a conquista da prosperidade financeira tendo o dinheiro como um fim em si mesmo.

Foto: MorgueFile

Mas a simples motivação de ter dinheiro é vazia. Caso contrário, as pessoas mais felizes e realizadas seriam as pessoas com salários mais altos ou milionários que ainda não foram pegos numa intervenção da polícia federal. Também nesse pensamento de que o dinheiro é o sentido da vida, podemos ver os que tentam cortar caminho para consegui-lo de forma mais fácil. Temos crianças e adolescentes que sonham com uma vida de jogador de futebol reconhecido em um grande clube. Ou mesmo as pessoas que desejam ardentemente ganhar o prêmio máximo da loteria.

A quantidade de jogadores que morrem no anonimato com salário mínimo e os que voltam a ser pobres em poucos anos após receber o premio milionário da loteria também provam que a afirmação do inicio do texto está correta.

Uma variação bastante popular é a conquista do poder. Muita gente acredita que a combinação entre dinheiro e poder é perfeita. Outro engano grave. Haja vista nossos políticos. Essa mistura é veneno para alma. A falta de nobreza e o excesso de cobiça no coração do politico trava o desenvolvimento do país. Nos alertou São Paulo na epístola a Timóteo: "(...) A raiz de todos os males é o dinheiro (1 Tm 6, 10)".

Enfim, em nenhuma dessas afirmações anteriores concluímos que o dinheiro resolve, traz sentido, salva as pessoas ou um país da falência. O enaltecer do sucesso financeiro ou do reconhecimento apenas através do dinheiro pela sociedade é que provoca o mal maior.

As almas vazias acreditam que se encherão de sentido e significado quando a conta no banco tiver saldo alto e na mão um cartão de crédito internacional sem limite. Os jovens frustrados dos rolezinhos ou dos saques às lojas em Londres, veem a sua frente o que não podem ter, e como a sociedade se resume a isso, em seu limitado universo, eles querem ter e fazer parte dela à força. Ainda usando a atemporalidade de São Paulo a seu discípulo Timóteo: "Se tivermos o que comer e com o que nos vestir, que nos contentemos com isso" (1Tm 5, 8), vemos que judeus, gentios e anciãos contemporâneos não entenderam que o dinheiro é miserável.

Eis ai o grande desafio do Evangelho: mostrar que somos miseráveis, se só temos dinheiro...

*Colaboração para o blog

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