O que é a Teologia do Gueto?


Teologia é a junção de duas palavras gregas: Theos = Deus + Logos = palavra, assunto ou tratado. Usando seu termo etimológico, Teologia significa assunto, tratado, ou estudo sobre Deus.

Portando, associar Deus e Teologia a igreja é algo muito comum. Esse estudo sobre Deus é abstrato, e para se concretizar, Ele ganhou inúmeras "formas". Os aborígenes da Oceania não tiveram contato nenhum com os incas Sul-americanos, e mesmo assim, pregavam o politeísmo e semelhanças em suas divindades. O que quero dizer é que, mesmo alguns dedicando-se e mergulhando nas fossas abissais de escritos sagrados como a Bíblia cristã durante toda a vida - como o monasticismo e os monges eremitas - podemos ver que, num passado distante com tribos em locais longe da filosofia grega e do principio teológico, o ser humano dava "formas" para Deus.

Da mesma maneira que o letrado Carlos Drummond de Andrade fora poeta, a semi-analfabeta Carolina Maria de Jesus também o foi. Seguindo essa linha de raciocínio e desconstruindo  mais uma vez a palavra, assuntos relacionados a Deus podem ser classificados como Teologia, ganharem composição e terem "forma", e não somente estudos de escrituras sagradas e biografias de líderes religiosos, sejam eles da antiguidade como Confúcio e Lao-Tsé, ou mais contemporâneos, como Joseph Smith Junior e Mokiti Okada. Assim, assuntos de Deus podem ser debatidos fora dos muros da universidade e das instituições religiosas, da mesma forma que a negra favelada do Canindé tornou-se uma das maiores escritoras do país. Por conseguinte, ateus e agnósticos podem dar sua "forma" a Deus fora de dogmas ou doutrinas religiosas, classificando Deus como um deus que criou o universo, ou ponto de partida para a criação, seja ele um ser ou força motriz.

A Teologia do Gueto tem ênfase e embasamento cristão na figura de Jesus Cristo como libertador, que quebra grilhões reacionários, com sua simplicidade e seus ensinamentos sapienciais. Cristo mostrou a humanidade regras simples de convivência, das quais uma é básica: "ame ao Senhor seu Deus com todo seu coração, com toda sua alma e com toda a sua mente" (Mt 22, 37; Mc 12, 30) e "ame seu próximo como a si mesmo" (Mt 22, 39; Mc 12, 31). Jesus nos ensinou que esses são os maiores mandamentos de Deus, amá-lo sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo, e que toda Lei e os Profetas dependem disso.

A pintura de Maximiliano Cerezo Barredo, na Catedral da Prelazia de São Félix do Araguaia

Seguir a orixás, kamis, Buda ou simplesmente ninguém, é secundário diante desses mandamentos. Portanto, a Teologia do Gueto faz uso deles, e não se manifesta por placas de igreja, dogmas ou doutrinas. É livre para qualquer um que segue o que Jesus ensinou por meio dos Evangelhos sinóticos de Mateus e Marcos em 2 versículos bíblicos, mesmo não sendo cristão. Eles são a base de 73 livros, 1328 capítulos e 40030 versículos da Bíblia que os católicos usam desde 1572.

Eu, Orlando Jay, por meio de assuntos cotidianos e periféricos, linco-os com o Evangelho dando "forma" a Deus, e qualquer pessoa que seja capaz de desenvolver no seu dia-a-dia esses dois mandamentos de Jesus, que está acima da Lei (religião) e profetas (lideranças religiosas), seja em um sarau de poesia, letra de Rap, visitando um preso, dando alimento a quem passa fome ou cobertor a quem passa frio, é um teólogo do gueto. Amar e Deus e o próximo, é a base sólida em que estamos alicerçados, e esses assuntos de Deus, na etimologia teológica, veremos nos próximos posts, com a colaboração dos historiadores Marcelo Rock e Ellen Oliveira.

  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS