Ressaca Teológica

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"Teremos luzes, festas, árvores luminosas e presépio. Tudo falso: o mundo continua fazendo guerras. O mundo não entendeu o caminho da paz" (Papa Francisco)

As palavras do Papa Francisco pronunciadas dia 19/11 em homilia na Casa Santa Marta são a encetadura da Teologia do Gueto para reflexão do Natal. Sabemos que a data é oriunda de uma festa pagã, e que é amplamente questionável o nascimento do Messias dia 25 de Dezembro. Mas, esse encetativo introdutório pelo Papa é a visão da Teologia do Gueto sobre o Natal, e a partir disso, vamos refletir não somente sobre o nascimento, mas como o mundo mudou após o primeiro choro de Jesus. 

De acordo com relatos históricos extraídos de uma conjuntura de livros chamada Novo Testamento, sua mãe engravidou antes do casamento, algo inadmissível e punido com morte (Lv 20, 10. Maria, uma adolescente grávida antes do casamento prometida a um homem, seria classificada e rotulada como adúltera, importante refletir sobre esse auspícios social), mas seu corajoso pai adotivo assumiu-o como sendo seu filho. Essa desequilibrada família (mesmo aos moldes contemporâneos de hoje seria considerada desequilibrada), pobre, cuja renda estava restrita a carpintaria, teve o menino em uma manjedoura, na mais completa miséria. Mas não foi "só isso". Em virtude de um decreto da tirania, essa desequilibrada família pediu abrigo a nações estrangeiras, e ali viveram como refugiados. Importante aqui refletirmos sobre o que a Palavra nos ensina sobre os refugiados: "Não oprima o refugiado. Vocês conhecem a vida do refugiado, porque foram refugiados no Egito" (Ex 23, 9). Não é importante refletir sobre o que ocorre como s sírios, por exemplo? A guerra civil Síria assemelha-se com o decreto de Herodes (Mt 2, 16), onde a Sagrada Família migrou de sua terra natal contra sua vontade.  

O menino, mesmo sob as condições adversas, cresceu saudável, e aos 12 anos, de volta a Israel, já incomodava o sistema ditatorial que se instalou em sua pátria: o Império Romano, mesmo nessa tenra idade. O filho do carpinteiro era eloquente, e ao ser questionado, tinha todas as respostas. Isso abalou as estruturas dos reacionários. Com parábolas, ensinava o povo oprimido a pregar a caridade, fraternidade e humildade, o contrário do que o sistema ditador pregava, que era a intolerância religiosa e a cobrança de altas taxas de impostos, gerando miséria e discrepantes classes sociais por Israel.

Uma legião dos grupos sociais excluídos passou a seguir o jovem, que mais tarde, foi acusado de subversivo pelo sistema. Com argumentos pífios, tentaram persuadir o povo, que cansado de tanta opressão, apoiou o jovem revolucionário. Com a argumentação de agitador e de ameaça a ordem pré-estabelecida, o jovem recebeu voz de prisão. Um de seus discípulos, corrompido pelo ato de possuir, foi comprado e entregou o jovem, que estava no auge de seus 33 anos. 

Foi preso e barbaramente torturado nos porões. Resistiu as torturas e manteve sua ideologia de uma sociedade igualitária e justa, mesmo sobe a ameaça de morte. Sem uma base sólida para incriminá-lo, o esquadrão da morte precisava calar o jovem, e os soldados do império o levaram a morte mais humilhante de todas: a crucificação. Carregou sua própria cruz até o abatedouro, recebendo açoitadas, pedradas e pontapés em avenida pública, sendo humilhado por seus algozes de armadura.

Com a carne perfurada com pregos e com uma lança, foi pendurado por horas até as últimas gotas de sangue, suor e lágrimas caírem de seu corpo. Resistindo bravamente o quanto pode. Sustentou a sua ideologia, e calado, sofreu até o último suspiro de vida ao lado de dois prisioneiros políticos, e tendo aos pés da cruz que estava pendurado, sua mãe, que como tantas outras, até a presente data, perderam seus filhos inocentemente, sem antecedentes criminais, sob a falsa acusação de pregar subversão. Todos os que apoiaram sua ideologia, foram presos, torturados e mortos.

Que as pessoas se enchem de altruísmo no Natal, eu já acho o oposto. Natal é o momento em que  a maioria de nós gastamos o 13º salário comprando presentes, roupas novas e comida na mesa, em ampla exploração do capital. Como disse o sapiencial Rei Salomão, pensamos nas filas ou no alto custo, o que importa é comer, vestir-se bem e presentear os outros. Salomão nos alertou que tudo é ilusório (Ecl 1, 2. Vide na íntegra a matéria O Homem de Areia e Vento), e não observamos a chuva que caiu no dia de Natal, e as pessoas sem teto como Jesus que não podem se aquecer, se alimentar, se vestir, e até mesmo se abrigar. Jesus foi enfático ao dizer: "Quando der esmola, que sua mão esquerda não saiba o que a direita está fazendo, de modo que sua esmola seja dada em segredo. E seu Pai, que vê em segredo, compensará você" (Mt 6, 3-4).

O Natal parece uma peça de teatro, um universo paralelo onde sonhamos e nos anestesiamos das dores que a vida nos dá, porém, após o último ato, a peça finda e despertamos do espetáculo de sonhos.  A Teologia do Gueto propõe uma reflexão pós-natal, as consequências, o que Jesus fez por nós. 

Uma boa ressaca teológica de Natal, após embriagar-se com falsas ilusões natalícias...

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Só Acredito Vendo

Foto: Morgue File

*Por Marcelo Rock

“...Se eu não vir o sinal dos cravos em suas mãos, e não puser o meu dedo no lugar dos cravos, e não puser a minha mão no seu lado, de maneira nenhuma o crerei...”. (Jo 20, 25)

Quando São João disse: “... O mundo jaz no maligno...” (1 Jo 5, 19), é porque sabia exatamente o que estava dizendo. Quando Constantino grita: “... Um império, um imperador, uma única religião...”, era o inicio de uma guerra pelo poder e sequestro das almas dentro do campo religioso. Mas não somente isso (o que já é demais), também de todos que não professam a mesma fé. Fé, pra que precisamos dela? Bom, a fé natural é aquela que faz acreditar que ao sentar numa cadeira ela não vai quebrar, e a sobrenatural pra maioria é a que me faz acreditar que a cadeira é sagrada.

A religiosidade de todas as formas parece materializar o que Jesus disse sobre o mal que viria. A cerimonia, o rito, a pajelança, a água, o sangue, o sacrifício, a oferenda, candelabro de 18 hastes, vela colorida, xale, cocar, manto, cachimbo... Tudo coisa inventada por homens, prometendo aproximar o homem do divino. A religião é sempre o desejo humano de fazer por Deus aquilo que Ele em Cristo já fez pelo humano, e na intensão de fazer, de aproximar, acaba separando, afastando, porque injeta santidade em um objeto, e as cerimonias e os objetos passam a ter mais valor e significado que o próprio homem. É o mesmo que contradizer a Palavra quando Jesus disse a mulher da Samaria: “... nem naquele monte, e nem neste, mas os verdadeiros adorarão em espirito...” (Jo 4, 21. 24).

O fato de usar a Bíblia como pen-drive sagrado é o mesmo ritual de qualquer outra religião de usar qualquer livro. Ela é um acessório, um periférico que fica fora de mim, não vem on-boad, e que conecto quando preciso. É a representatividade no objeto e a redução de um deus na mediocridade de uma caixa, de um livro que parece que dita e prevê o que Deus irá fazer, dizer, pensar. Isso é a invenção de outro Deus. E nessa nossa imaginação fértil, esse ser que criamos, não sai uma vírgula fora do que está escrito. Como se esse “manual de instruções” sobre ele, fosse maior do que ele mesmo. Com isso, mediocrizamos Deus e nós mesmos, numa fé que não transcende nada. É como a atrofia bonsai: plantar uma árvore que seria enorme, frondosa, frutífera, em uma pequena caixa. Depois poda-la dia após dia, para que ela seja formatada e limitada á aquele tamanho, simplesmente porque é “bonitinho”.

A formatação das religiões quer sempre justificar tudo pelo simples rito. Aliás, em alguns casos esses ritos não são tão simples, e o mais interessante é que pra uma alma errante, isso é até mais atraente, visto que não tem coragem ou morre de medo de conhecer a liberdade, ou conhecer a verdade que liberta. Não sabe lidar com o livre arbítrio, tem sempre que ter uma regra pra monitorar sua vida, uma obrigatoriedade pra dar chão e ao mesmo tempo, alivio de consciência.

A fé em coisas palpáveis é uma fé infanto-juvenil, que precisa do aparato físico pra se materializar. Porém, a fé nada tem de material, mas sim de espiritual. E quando ela não acontece no plano espiritual, então ela é morta, porque depende de lugares e objetos pra ser praticada, exercida e concretizada. Crer somente parece não ser suficiente, tem que ostentar.
Então precisamos de templos enormes, de estruturas gigantescas, pra acolher a fé, pra exercitar a fé. Quanto maior o templo, mais bonito, maior parece ser a fé num Deus representado pelo concreto, o divino passa a ter cheiro de argamassa. Crença de grandes salões, fé de galeria, paixão de alvenaria, religiosos do ar-condicionado. A fé sobrenatural, espiritual não precisa de livros sagrados e nem de locais ou rituais, ela deve existir no coração, ou seja, na mente, e se materializar por meio das atitudes. Ser melhor ao semelhante, por exemplo; ama-lo ou pelo menos, respeita-lo, independente da fé que professa ou de que lugar do mundo veio se tem dinheiro ou não... Esse é o desafio da fé, e sem essa fé, que não vê nada em sua frente, mas continua acreditando, que não é palpável, que não se materializa em objetos, mas na atitude, essa é a única que pode agradar á algum Deus.

Se você não “comer o livrinho”, ou seja, internalizar essa crença, ela não passa de fé natural. É como aquele tiozinho que só tira o carro da garagem no Domingo, o famoso domingueiro, ou sabatista. Uma fé barbeira, que provoca engarrafamento. Só pratico nos finais de semana, fora disso, não há nada em mim que identifique. Parece que ela não combina com meu dia-a-dia.
No fundo gostamos de ser controlados, parece que com uma formula uma receita, podemos sentir a garantia que tudo vai dar certo no forno que cozinha, que assa o vaso. Mas esquecemos de que não somos a pessoa que faz o vaso, quem faz é o oleiro. Só que não estamos dispostos a deixar que ele trabalhe. Nossa fé vai até a página dois.


O mundo da fé, parece ter se transformado, se esforçado pra cumprir a profecia de Jesus que disse que isso aqui já “tava moiado” desde a época dele. De lá pra cá só piorou, então, justamente aquilo que seria a cura pras nações, virou a doença, ou um vicio, dependência psico-espiritual, um comprimido, a dosagem pra um sustento de seis dias, depois, corro pra tomar mais uma nova dose. Um efeito placebo, num certo lugar, construído pra isso, com objetos na mão e movimentos que provem pra mim mesmo e para os outros que estão me olhando, inclusive pra Deus, que eu estou em comunhão, ufá! Isso tudo dentro de um embrulho bonito, com algo podre dentro. Maligno até a última dose, sem medo de infectar á tudo e á todos, exalando cheiro de enxofre no planeta. Mas num tem problema, a embalagem é bonita, e depois a gente joga um perfume pra disfarçar o cheiro e pronto. O importante é o que as pessoas veem.

* Colaboração para o Blog.

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O Justo x O Malandro



Por Marcelo Rock* 

O Reino de Deus não é comida nem bebida, e sim justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Rm 15, 17).

Já dizia Bezerra da Silva, que “Malandro é malandro, e mané, é mané”. Quem nunca ouviu falar do jeitinho brasileiro? Acredito que esse estereótipo se estabeleceu como um traço de nossa característica. Muita gente acredita que corrupção é apenas aquela coisa vergonhosa que os políticos e executivos, “distantes de nossa realidade”, cometem contra as instituições governamentais ou privadas.  E que o jeitinho brasileiro seja uma força um talento para sobreviver á tantas mazelas e dificuldades promovidas em nosso país. Uma ginga para ludibriar e saber resolver situações adversas, um poder de adaptação, a dança do malandro, do esperto, da pessoa que se vira e que não desiste nunca.

Uma rápida paradinha na vaga de deficiente, uma ultrapassagem pelo acostamento, colocar o fone de ouvido e fingir estar dormindo para não dar lugar no transporte público, colar na prova, incluir o nome num grupo para ter nota no trabalho sem tê-lo feito, trabalhar apenas quando o chefe esta por perto, perceber que veio dinheiro a mais no troco e não devolver,ter dois números de celular para não ser pego pelo cônjuge... E no meio cristão? Orar mais alto para que todos achem que você é mais fervoroso, sentir raiva e achar que aquela pessoa que não vai á igreja ou falta muito, por não estar em comunhão ou perdeu a fé, acreditar que é mais “crente” ou mais “santo” por "falar" em línguas ou por fazer tudo certinho, ser eficiente ao apontar a falha, o erro, ou exigir justiça, enfim, quando alguém cometer qualquer uma dessas ações citadas acima.

Por que criticamos os corruptos, mas praticamos a corrupção? Será que é falta de oportunidade ou caráter? E se tivéssemos a oportunidade de nos corromper? Será que todos tem um preço? Qual o tamanho da sua ambição?

Pois é, a corrupção tem várias formas, e esta em muitos lugares. É claro que os impactos desses pequenos delitos na sociedade são ínfimos se comparados ás práticas de desvios de milhões de reais dos cofres públicos, de empresas contratadas por meio de alianças, conchavos, acordos, esquemas. E como facilmente pudemos perceber ultimamente, a corrupção não se restringe a um partido político.

Mas e o contrário disso? Você já se sentiu criticado ou mesmo considerado “mané”, babaca, pouco esperto, boca-aberta, bocó, por ser educado, gentil, por não revidar a ofensa, por não ir á forra, por não querer discutir, por deixar que passem na sua frente, por não ser oportunista, por não querer levar vantagem, você já se sentiu um idiota, te chamaram de trouxa ou fraco por essas coisas?

Aquele profeta que não tinha onde recostar a cabeça, aquele homem do povo e das multidões, que curava, mas não queria reconhecimento, o filho de um carpinteiro que se despojou de toda glória e mergulhou em uma “missão suicida”. Sem glamour, sem plumas e paetês, sem holofotes, nem dublê pra horas difíceis, disse o seguinte: “... Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no Reino dos Céus...” (Mt 5, 20).

Não vejo isso como uma ameaça a salvação da alma, mas sim um desafio. Um desafio para sermos melhores, não nos deixar levar pelo ranço e a pressão de uma sociedade com sérios problemas de ética, e caráter. O não conformar-se com este mundo se aplica aqui também, no momento em que você pode ser justo, correto, mesmo quando ninguém esta olhando, e uma justiça que excede, não é uma ação vingativa, revoltada e destrutiva.

E que tal ser melhor hoje, agora? Contribuir para a melhora dos que estão á sua volta naquilo que estiver ao alcance? Quando vemos a injustiça, somos os primeiros a pular com o dedo em riste, por ver pouca justiça se concretizar em nossos dias. Mas isso não é desculpa para sermos incorretos.

Sabemos que a proposta do evangelho é radical. E por vezes já fomos motivo de piada por querer ou fazer o que é certo. Mas esta é a grande luta, a grande resistência. Amar num mundo sem amor, ser justo num mundo sem justiça. O convite de Jesus é de ir além do óbvio, do automático, da zona de conforto, daquela mania de dar um jeitinho em tudo, de querer cortar caminho, de ser malandro.

Na verdade, ser justo, ter caráter, não pode depender do próximo e nem das situações. Sem essa conversa de minha educação depende da sua. Isso é coisa de gente pequena, mesquinha. Queremos um país justo? Mudemos á nós primeiro, não podemos acreditar que ser justo é ser Mané, apesar de ser esta a visão da nossa sociedade.


Jesus nos desafia a crescer como cidadãos, como namorados, maridos, esposas, pais, filhos, irmãos, vizinhos. Mais á frente, ainda no Evangelho de Mateus, Jesus fala sobre a mudança de atitude e a escolha que demos fazer. Fala de um caminho, uma porta estreita onde são poucos que escolhem passar por ela. (Mt 7, 12-14). Esse caminho não tem glamour, “likes”, “self´s”, nem reconhecimento; e poucos compartilham. Mas é o caminho dos que acreditam que é possível uma mudança, uma vez que “o justo viverá pela fé” (Gl 3,11b). 

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Por Uma Hermenêutica Negra



"Pode o negro mudar a cor da sua pele?" (Jr 13, 23)

Pretos e pretas nascem e morrem pretos. Estive auspiciando os comentários pejorativos sobre as missas afro realizadas por dioceses de camaradas nas redes sociais esse final de semana, e pude observar uma falta de exegese bíblica e de conhecimento nas Encíclicas do catolicismo romano, na qual vi a necessidade de blogar sobre. 

No documento SC (Sacrosanctum Concilium), está legitimado o rito afro. Nos parágrafos 38 e 39 está legitimado a adaptação litúrgica: "Mantendo-se substancialmente a unidade do rito romano, dê-se possibilidade às legítimas diversidades e adaptações aos vários grupos étnicos, regiões e povos, sobretudo nas Missões, de se afirmarem, até na revisão dos livros litúrgicos; tenha-se isto oportunamente diante dos olhos ao estruturar os ritos e ao preparar as rubricas; Será da atribuição da competente autoridade eclesiástica territorial, de que fala o parágrafo 22 § 2 (Vide esse tópico se achar necessário), determinar as várias adaptações a fazer, especialmente no que se refere à administração dos sacramentos, aos sacramentais, às procissões, à língua litúrgica, à música sacra e às artes, dentro dos limites estabelecidos nas edições típicas dos livros litúrgicos e sempre segundo as normas fundamentais desta Constituição." (SC 38-39). A musicalidade afro se legitima no mesmo documento, no parágrafo 119: "Em certas regiões, sobretudo nas Missões, há povos com tradição musical própria, a qual tem excepcional importância na sua vida religiosa e social. Estime-se como se deve e dê-se-lhe o lugar que lhe compete, tanto na educação do sentido religioso desses povos como na adaptação do culto à sua índole, segundo os parágrafos 39 e 40. Por isso, procure-se cuidadosamente que, na sua formação musical, os missionários fiquem aptos, na medida do possível, a promover a música tradicional desses povos nas escolas e nas ações sagradas." 

Mas voltando ao inicio do texto, é importante compreender dentro das Sagradas Escrituras o papel de pretos e pretas. Vamos, por meio de uma ordem cronológica, descreverei sobre quem são, o que fizeram e sua importância. 

Na Palavra, toda vez que ler Cush, Cuch, Cusi ou algo similar, entenda-se que está lendo sinônimo de tés escura ou preto. A primeira vez que aparece na Bíblia é em Gn 2, 13, ao descrever o Rio Gion, que cobria a "terra de Cush". Aqui, descreve o local como terra de pretos, logo, associa-se a África. No texto Criar e Evoluir: Tempo Teológico, há uma associação com o Rio Nilo, mas em outro tipo de exegese. Mas continuando, de acordo com o sinólogo e teólogo Richard Wilhelm, Cam (em algumas traduções Cão), o filho de Noé, era o pilar da raça negra após o Dilúvio (Tao Te King - Livro do Sentido da Vida, Pág. 12). Tendo esse alicerce, fácil justificar que seu primeiro filho, Cush (Gn 10, 6) era preto. O neto de Cam, filho de Cuch, Nenrod, segundo as Escrituras, foi o "primeiro valente da terra. Foi um valente caçador aos olhos do Senhor" (Gn 10, 8, 9a). A palavra caçador, é um adjetivo que pode significar aquele que pratica a caça e também a um soldado. Se olharmos por uma segunda ótica, a exegese bíblica pode ser "como Nendod, valente soldado diante do Senhor." Dali surgem também os exímios arqueiros, Lud, filhos de Mesraim (Gn 10, 13). Em Jr 46, 9, há referência deles, mas até mesmo a Bíblia do Peregrino, grande enciclopédia de estudos pastorais, não há referência nenhuma sobre os ludianos na nota de rodapé. A partir da árvore de Gn 10, encontramos referência para outros pretos e pretas, que alguns serão descritos mais a frente. 

Avançando, vemos Moisés presenciar o primeiro ato racista bíblico. Em Nm 12, 1, mostra Aarão e Maria tendo preconceito com sua esposa cuchita durante a peregrinação do deserto. A ira de Deus surge sobre Maria, que imediatamente, ficou isolada por 7 dias do acampamento do povo de Deus com uma doença contagiosa (Nm 12, 9-15). Mas vemos também mulheres com status de Rainha. A Rainha de Sabá (1Rs 10, 1-13 ou 2Cr 9, 1-12), esteve com o Rei Salomão em comitiva, por admirar sua grande sabedoria. Houve uma troca de gentilezas entre rei e rainha de acordo com as Escrituras, e de acordo com o Kebra Negast (livro etíope que conta a dinastia salomônica), afirma que Menelik I, fundador do Império Abissino, foi fruto dessa união real, que muito influencia na cultura etíope. Tanto que desde 980 a.C, os imperadores salomônicos herdam o título de Leão de Judá.  No Sl 68, 32, diz que a "Etiópia estenderá as mãos para Deus", e no Sl 72, 10b, que os reis de Sabá tem 'dons'. O livro do Cântico dos Cânticos (ou Cantares de Salomão) faz referência a cor de pele preta: "Sou morena, mas formosa, ó filhas de Jerusalém, não reparem se eu sou morena, foi o sol que me queimou" (Ct 1, 5-6a). Por ser atribuído ao Rei de Israel, e por ser uma entrega de um homem e mulher embriagados de paixão e extasiados de amor, nos mostra claramente que Menelik I pode ser mesmo fruto dessa relação, com referências nossas (cristãs). 

De acordo com o profeta Isaías, a Etiópia era "uma nação de gente alta e bronzeada, a um povo temido em toda parte, a um povo forte e dominador" (Is 18, 2). Essa referência mostra o porque a Etiópia sempre fora um Estado independente, mas, o fóssil social de achar que a África é um continente pobre e a escravidão durante as grandes navegações, nos faz pensar que ao lermos sobre Ebed-Melec (Jr 38, 7-13), um eunuco etíope, pensamos em um serviçal, escravo. Mas basta analisar com base no versículo de Isaías: será que um rei iria ouvir um simples escravo e seus conselhos, e tiraria o profeta Jeremias do poço? E será que Deus mandaria o próprio profeta dizer para ele (Ebed-Melec), que teria sua vida poupada por ter confiado no Senhor (Jr 39, 16-18)? Não! Ebed-Melec tinha cargo de mais alta hierarquia, e salvou o profeta Jeremias da morte. Ainda dos profetas, temos Sofonias, filho de Cush, ou seja, filho de negros. Profeta de Deus preto, que guiou o "resto de Israel", o povo que não se corrompeu (Sf 9, 12-13).

Já no Novo Testamento, temos passagens fortes e marcantes pelo Evangelista São Lucas no livro dos Atos dos Apóstolos. Em 8, 26-39, ele batiza o etíope ministro da rainha de Candace, e ali inclusive, quebrou a lei do deuteronômio, pois ele era um etíope, e segundo a lei, pessoas com testículos esmagados não pode participar da assembléia de Deus (Dt 23,2). E outra, muito marcante para nós cristãos, está em 13, 1, fazendo referências a Simeão, conhecido como Negro, e Lúcio, da cidade de Cirene. Quanto a cútis de Simeão, não há dívidas, já Lúcio, por ser cireneu (atual Líbia), poderia não ser preto, mas era africano, porém, sua cor de pele não era branca. Quem eram eles? Profetas e mestres da Igreja de Antioquia, juntamente com Paulo e Barnabé. Novamente fazendo referência a Bíblia do Peregrino, nas rodas de rodapé nada de fala dos profetas pretos...

Cheguei ao final da postagem. Essas são algumas referências de pretas e pretos na Bíblia, mas ainda restam duas. Uma delas está em 3 Evangelhos sinóticos Mt, 27, 32; Mc 15, 21; Lc 23, 26: é Simão, da Cidade de Cirene. Assim como disse sobre Lúcio, se ele não era preto, era africano. Na Epístola aos Romanos, São Paulo diz que Rufo foi o eleito do Senhor (Rm 16, 13). Rufo é o filho do cireneu, relatado em Mc 15, 21. Mais um africano (se não preto) como referência bíblica de salvação. 

Mas o mais chocante mesmo, é Jesus Cristo. A figura de pele clara, cabelos encaracolados e olhos claros está totalmente antagônica a Palavra. O profeta Isaías o descreveu assim: "Ele não tinha aparência nem beleza para atrair o nosso olhar, nem simpatia para que pudéssemos apreciá-lo" (Is 53, 2). Porque Isaías o descreve assim? Jesus era preto! Basta ler a revelação de São João no livro do Apocalipse ao descrever Jesus Cristo: "os pés eram como bronze no forno, cor de brasa" (Ap 1, 15) e na visão do trono de Deus, quem sentava nele "parecia uma pedra de jaspe e coralina" (Ap 4, 3). Mais uma vez falando da Bíblia do Peregrino, diz na nota de rodapé que as pedras não parecem demonstrar algo especial, apenas ilustrativo. Se for para ilustrar, a Teologia do Gueto imagina que Jesus seria como um diamante, não como Jaspe...

Voltando a referência de Jeremias no inicio do texto, com o passar dos milênios a igreja fez com que Jesus, preto, mudasse sua cor de pele, ou será que estamos enganados? Tente ler a Sagrada Escritura por uma hermenêutica dos pretos, e tire suas conclusões...

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O Homem de Areia e Vento

Foto: MorgueFile

Por Marcelo Rock*

Um rapaz dorme em sua cama, dentro de uma casa humilde. De repente, ouve o barulho de um sino de igreja ao longe. Ele sabe que é hora de levantar e se prepara para mais uma jornada dura de trabalho no campo. Depois de muitas horas mexendo com a terra, novamente o barulho do sino: hora de ir à missa. Após a missa, retorna a sua casa, para descansar e, então, repetir tudo no dia seguinte. O oficio aprendeu com pai que por sua vez, aprendeu com avô do rapaz, e por muitas gerações, a vida não mudava muito. Sempre a mesma rotina, os mesmos lugares para ir e fazer as mesmas coisas.

Isso parece bem monótono e no mínimo chato. Na sociedade feudal da Idade Média, não existiam muitas aspirações e nem ambições de mudança do status social. A vida era o que sempre foi, quando já se conhecia o próprio papel na sociedade. A palavra indivíduo ou cidadão não existiam, pois isso é um conceito moderno. Nesse ambiente rural, o singular era desprezado, e a pluralidade ou o conjunto de pessoas era valorizado por seu encaixe na maquina que fazia tudo funcionar. Como engrenagens em um relógio, o todo era importante, e o papel de cada um era simplesmente, contribuir para o conjunto continuar em rotação. O camponês produzia, os soldados mantinham a segurança e a ordem, os nobres administravam e o clero dava a benção à tudo isso. Sem anseios, sem crise existencial ou de identidade. Tudo era praticamente pré-definido, pelo menos no consenso geral. Os especialistas da área médica dizem que o mal do século hoje é a depressão. Por que será?

Pois bem, se imagine indo a um supermercado comprar um sabonete. Aparentemente uma tarefa simples, inocente e corriqueira. Ao chegar á seção correspondente, você observa que na gôndola existe uma variedade interminável de opções de sabonetes: sabonete líquido, em barra, sabonete para pele seca, pele oleosa, para pele escura, pele clara, pele sensível, pele normal, com cheiro de flores, cheiro de frutas, cheiro de nozes, aveia, leite, folhas e casca de árvore, com hidratante, sem hidratante, com vitamina, com proteção contra germes, com proteção contra os raios UV... E isso tudo além da variedade de preços. Então, nessa agonia de não saber qual levar, você fecha os olhos, e pega um sabonete qualquer e começa a andar de forma determinada em direção ao caixa, porém com uma única certeza; de que deixou muitas opções para trás. E nesse “extenso” caminho para o caixa, algo lhe consome por dentro, uma pergunta terrível que assombra á todos em nossos dias: será que fiz a escolha certa? Qual profissão eu devo escolher? Vou fazer faculdade de que? Será que não seria melhor abrir um negócio próprio? Com quem casar? Será que essa pessoa vai ser boa para mim? O que ela tem de melhor do que as outras? Devo acreditar na Teologia da Libertação? E a da prosperidade? Qual deve ser minha postura diante da Renovação Carismática? Vou seguir por um viés mais tradicional? u virar ateu de uma vez e parar com essas dúvidas?

Nunca estivemos em tempos tão conturbados, nos quais tudo se questiona. A nossa crise é ter tanta opções e ao mesmo tempo, não sabermos escolher. Existem duas passagens bíblicas que se entrelaçam nesse momento para tentar responder essas questões. A primeira vem da sapiência de Salomão: "Tudo é ilusão e corrida atrás do vento" (Ecl 2, 17). Na Bíblia talvez não exista um livro mais “depressivo” e verdadeiro que este (Eclesiastes). Ele nos passa uma sensação de fim de festa, tipo, deitar e morrer por que agora nada faz sentido, mas... não é bem assim. Se olharmos melhor, ele nos mostre o contrário, ele nos desafia a crescer e enxergar as coisas como são de verdade. O outro vem do próprio Jesus, por intermédio dos evangelistas Mateus e Lucas, que conta sobre o homem que constrói sua casa na areia e o que edifica sobre a rocha (Mt 7, 24-27; Lc 6, 47-49). Acredito que se misturem na ideia de repensarmos quais nossas referências e as nossas bases. Salomão fala da busca por coisas que no fundo no são importantes de verdade, e por isso chama de vaidade. São supérfluas, superficiais, são valores “gasosos” da vida, princípios sem fundamentos, massagem no ego, crendice, superstição, não passam de vento. E mesmo assim, muitas pessoas consomem suas vidas correndo atrás. A palavra vaidade aqui tem peso de conceitos de coisas vãs. Não se trata da aparência externa, mas sim interna. Já em Mateus e Lucas, temos a areia, que funciona de forma parecida com o vento citado em Eclesiastes. Sem valores, sem base, os princípios medíocres, podem simplesmente fazer sua vida desmoronar, pois não passam de areia, que não sustentam uma edificação.

As nossas crises existenciais nas escolhas só existem, quando as nossas buscas são vento, coisas descartáveis, e promovem uma construção instável sobre a areia. Essas crises nos jogam num mundo de incertezas, por não oferecerem paz pra alma, por não resistirem á ação do tempo, por serem insuficientes ou em constante mudança. Abrir mão da vaidade de querer provar que se esta certo, que é melhor que o outro ou que tem mais sucesso, é mais próspero, mais fervoroso, mais crente, mais dedicado, mais espiritual, mais magro, tem um celular mais moderno, viaja pra lugares mais legais, tem mais amigos no Facebook, tem mais mensagens compartilhadas do que simplesmente curtidas. Veja que até nas coisas que deveriam ser boas, dependendo da postura, se transformam em coisas ruins que só refletem o quanto somos egoístas, mesquinhos, e vaidosos.

Essas coisas parecem ser importantes, para um mundo com uma realidade vazia, de coisas que são lindamente embaladas numa ótima propaganda, mas que não oferecem aquilo que prometeram. Formam pessoas feitas de areia e vento. O Apóstolo Paulo nos da a grande dica em sua carta aos Filipenses: "Tudo que é verdadeiro, tudo que é honesto, tudo que é justo, tudo que é puro, tudo o que é amável, tudo que é de boa fama, e se há alguma virtude se há algum louvor, nisso pensai." (Fl 4,8).

Em momento algum ele (Paulo) cita algo fora de nós, mas são atitudes e posturas internas em nossa mente, para dar inicio ao processo de construção com bases sólidas e não perder tempo correndo atrás do vento. E veja, que mesmo na solução de Paulo, não temos uma formula mágica: as formulas não existem, esta é uma proposta real, de um exercício diário. Um mundo melhor, uma realidade melhor, começa em uma mudança interna, começa por nós mesmos. Não espere do governo ou de um líder religioso. Comece você mesmo, agora! As certezas só são encontradas em valores perenes, encarando a vida de forma madura e real.

*Colaboração para o blog

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Criar e Evoluir: Tempo Teológico

A Criação de Adão - Michelangelo

"E Deus viu tudo que havia feito, e tudo era muito bom" (Gn 1, 31a).

A Bíblia está longe de ser um livro científico. Com mensagem atemporal, fora usada de maneiras bem diferentes, com épocas difusas, e com objetivos distintos. Mas uma coisa permanece um hiato: a contestação não apenas do criador, mas da criação.

Quanto ao criacionismo, algumas figuras históricas como o bispo anglicano James Usser (1581-1656) merecem destaque. No século XVII, com seu livro The Annals of The World, um folha maço de mais de 1600 páginas, usou fontes bíblicas e outras pertinentes (na visão do bispo irlandês) e concluiu que a Terra foi criada em 23 de Outubro de 4004 a.C. Tal colocação foi respeitada e aceita no mundo acadêmico, até que os naturalistas Georges-Louis Leclerc (1707-1788) e James Hutton (1726-1797), trouxeram a tona as falhas de Usser. Por meio de fósseis, foi possível comprovar a vicissitude do planeta, e que seriam necessários milhões de anos para que acontecessem, não apenas 6000 anos. Indagações como a de Xenófanes de Colófon nos idos 560 a.C, sobre como conchas estariam localizadas no alto de uma montanha, fizeram com que o proêmio do Paraíso de Ussher fosse amplamente questionado.  Outros, como o economista britânico e pastor anglicano Thomas Robert Malthus (1766-1834), analisaram que a população mundial crescia de forma geométrica, e a produção mundial de alimentos de forma aritmética. Sendo assim, não se poderia alimentar a humanidade de forma equitativa, e seus seguidores, os malthusianos, iam contra o que Deus afirmara na criação: "sejam fecundos, multipliquem-se" (Gn 1, 28b), pois usavam a castidade e o controle da natalidade para impedir uma explosão demográfica, que posteriormente, ocasionaria miséria e fome no mundo. Malthus, assim como Ussher, foi rechaçado, como o fez Ernest Gellner (1925-1995), filósofo tcheco que condenou a teoria como preconceituosa, pois priva os pobres e os culpa exclusivamente da miséria e fome no mundo, não levando em conta fatores como o desenvolvimento tecnológico, refutando os métodos malthusianos, e pondo abaixo seus cálculos com o aumento da produção de alimentos, e afirma que quem produz miséria não é o pobre, e sim, ele (pobre), é uma consequência. Por fim, não menos importante, o erro clássico com o astrofísico italiano Galileu Galilei (1564-1642), condenando a viver até o fim de seus dias numa masmorra, por ter a vida salva pelos tribunais da inquisição católica. Por piedade? Não. Por temor à morte, Galilei negou o heliocentrismo, a teoria astronômica que o sol é o centro do sistema solar, que a igreja condenava com penas nada brandas, como tortura e pena de morte, por enforcamento ou queimado vivo.

Erros como os citados acima foram a munição para evolucionistas. O naturalista britânico Charles Darwin (1809-1882) teve caminho livre para desenvolver com propriedade a Teoria da Evolução das Espécies. Todavia, não se pode condenar por completo o criacionismo. O geógrafo brasileiro Milton Santos (1926-2001), em uma de suas celebres frases disse: "A força da alienação vem da fragilidade dos indivíduos, que apenas conseguem identificar o que nos separa e não nos une". A frase do saudoso professor foi o combustível para eu buscar uma convergência entre ciência e religião.

Mas a pergunta é... como? Já fui em muitos locais, mas vi que falar de Deus não é tão simples. Um neurologista, por exemplo, estuda o cérebro humano, mas tem ferramentas para isso; um cardiologista tem aulas práticas com um coração de verdade, e um teólogo...qual objeto de estudo para um teólogo? Fica difícil falar de algo que nossos 5 sentidos não percebem. Como falar de Deus se não se pode nem ao menos provar a criação? A uma pessoa no estado atamancado ou enferma buscando um milagre divino, é simples, pois a exasperação nos faz crer num Cristo metafísico, e torna-se mais simples falar de Deus. A Teologia do Gueto buscou respostas para as pessoas que não se encontram nesse estado, a ponto de entrar em histeria coletiva com os "controladores" do Espírito Santo de Deus. 

No Gênesis, na narrativa da criação, Deus disse: "que fervilhem das águas um fervilhar de seres vivos, e aves revoem sobre a terra debaixo do firmamento do céu" (Gn 1, 20). Se formos ver de acordo com o tempo geológico, a Bíblia não segue um fundamento lógico, uma vez que as criaturas marinhas surgiram no Pré-Cambriano, há pelo menos 670 milhões de anos, e as primeiras aves, só surgiram no período Jurássico, há 144 milhões de anos aproximadamente. Uma infinidade de espécies diferentes surgiram entre os seres pluricelulares e as aves. A Bíblia errou? De acordo com o tempo geológico, no período Carbonífero (de 360 a 290 milhões de anos atrás), havia a Meganeura Moyni, uma espécie de libélula gigante de 70 cm (suas dimensões são consequência da alta oxigenação do período), mas... o que isso tem haver com as aves? As Testemunhas de Jeová em sua exegese bíblica, dizem assim: 'O termo hebraico ʽohf, derivado do verbo “voar”, aplicava-se a todas as criaturas aladas ou voadoras. O termo não somente abrangia todas as aves , inclusive codornizes e também aves necrófagas, mas também podia ser aplicado aos insetos alados, que estão incluídos entre as “pululantes" criaturas aladas' (Estudo Perspicaz das Escrituras, Volume I - Aará a Escrita, 1988, p.278). Logo, quando Deus diz 'ohf, pode muito bem descrever uma Meganeura. Nesse caso, a cronologia com a ciência não está de modo tão semoto.

Na sequencia da Criação, Deus diz: "Que a terra faça sair seres vivos por espécie: animais domésticos, bichinhos e feras da terra por espécie" (Gn 1, 24). Animais domésticos? Como assim? O que entendemos por animais domésticos são os de estimação, ou seja, cachorros, gatos, passarinhos etc. A Bíblia errou? Como que após a Meganeura iriam surgir cães e gatos? Ainda no período Carbonífero existiram os sinapsídeos, que eram o grupo ancestral dos mamíferos. Sua árvore filogenética passa por muitas transições, que vão da extinta Caseasuária aos mamíferos. Isso mesmo! Os gatos, cachorros, porquinhos da Índia e etc. Os animais domésticos que Deus em Gênesis cita podem ser sinapsídeos? Ora, e porque não?

As feras da terra creio que não poderiam ser outro tipo de criatura. Seguindo uma ordem cronológica, fera pode muito bem ser as criaturas da Era Mesozoica (de 250 a 65 milhões de anos atrás), os gigantes que habitaram a terra, os dinossauros. Ao lermos 'fera', inconscientemente lembramos de leões, tigres e ursos, mas...imaginou ler a Bíblia dentro por essa perspectiva, de Deus criando dinossauros? Tão surreal...

E os bichinhos? Deus os menciona em outra partes: "bichinhos do solo" (Gn 1, 25) e "bichinhos que remexem sobre a terra" (Gn 1, 26). Quem poderiam ser?  Pela sequencia da Palavra, em Gn 1, 24, temos: animais domésticos, bichinhos e feras. Animais domésticos citamos que Deus pode mencionar os sinapsídeos, e as feras, os dinossauros. Entretanto, e os bichinhos? Também no Carbonífero surgiram os primeiros répteis, e os bichinhos do solo ou que se remexem sobre a terra podem ser por exemplo, o Hylonomus (rato da floresta), o mais antigo réptil encontrado até hoje (há 315 milhões de anos), com o tamanho de apenas 20 cm. Mas, para não entrar em contradição, vamos a etimologia da palavra réptil. Originaria do latin Repetile, que significa, a grosso modo, rastejar, ou ser que rasteja, descreve bem as características do pequeno Hylonomus, que vivia no solo, escondendo-se de seus predadores, e era, literalmente, "um bichinho do solo que rastejava".

A sequencia de Gênesis é propínquo aos períodos Siluriano, Carbonífero e Jurássico, por exemplo, "Os grandes animais do mar", que Deus descreve em Gn 1, 21, podem muito bem ser os tubarões, que surgiram no período Siluriano, há 400 milhões de anos; do Carbonífero temos as "aves" do céu Meganeuras; os animais domésticos seriam os sinapsídeos; os bichinhos do solo o pequeno Hylonomus e no Jurássico, as feras seriam os dinossauros. A sequencia da narração da criação segue uma forma sequencial, semelhante ao tempo geológico,

E quanto aos humanos? "E Deus criou o ser humano a sua imagem, à imagem de Deus ele o criou" (Gn 1, 27). O registro hominídeo mais antigo, o Sahelantropus Tchadensis, fora encontrado no atual Chade, e viveu por volta de 7 milhões de anos atrás. Após a narrativa da criação, Deus criou o Jardim do Eden (Gn 2, 8), que era cortado por 4 rios: um deles, chamado Gion, cobria toda a terra de Cush (Gn 2, 13). A palavra Cush na Bíblia, tem significado de negro, ou aquele de tez escura. O antigo reino de Cush ficava onde hoje localiza-se os atuais Sudão e Sudão do Sul, e por ter sido encontrado no Chade, os Sahelantropus Tchadensis poderiam ter vivido no Sudão também. Trazendo para os dias atuais, um braço do Eden pode ter sido o Rio Nilo, e uma parte do Paraíso estar localizada na África, uma vez que o Nilo corta o Sudão, a antiga terra dos Cuchitas. Aqui, a proximidade com a ciência também se evidencia, pois ambos mostram que a humanidade surgiu geograficamente no mesmo local, o continente africano.

Você deve estar se perguntando agora, se os períodos e eras duram milhões de anos, como Deus fez tudo em dias? A Palavra diz: "pois mil anos diante de Seus olhos, são como o dia de ontem que passou"(Sl 90, 4), e o Apóstolo Pedro, fala algo muito semelhante: "para o Senhor, um dia é como mil anos, e mil anos como um dia" (2Pd 3, 8). Portanto, o tempo de Deus não é algo cronológico ou preciso, e um dia poderia durar um EON (divisão de tempo por eras). Por exemplo: "Veio o entardecer e veio o amanhecer, foi o primeiro dia." (Gn 1, 5b) No EON Hadeano (há 4,5 bilhões de anos), a terra era uma bola incandescente de fogo, que com a queda de um asteroide gigante, originou a Lua. Esse dia narrado por Deus pode ser um EON? "E ao firmamento Deus chamou céu" (Gn 1, 8). O céu que Deus faz menção, não pode ser por sua coloração azul, e as estrelas ao entardecer, a atmosfera terrestre? A diminuição de amônia e metano e a abundância de nitrogênio e vapor d'água somadas a fotossíntese do EON Arqueano (há 700 milhões de anos), não seriam um dia para Deus? 

São Paulo disse a comunidade de Corinto: "por meio do Espírito, a um é dada uma palavra de sabedoria; e a outro uma palavra da ciência, segundo o mesmo Espírito" (1 Cor 12, 8). Pretensioso dizer que ciência e religião caminharão juntos, mas creio na frase de Milton Santos, de não se alienar, é identificar-se com o que nos une.  Por uma hermenêutica biológica e com afã, é possível inserir Deus na criação e evolução, e desenvolver, por essa perspectiva, um Tempo Teológico. Claro, não tratam-se de afirmações, somente uma reflexão por parte da Teologia do Gueto...

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Meditação das Vulgívagas

Foto: MorgueFile

"Ainda que seus pecados sejam vermelhos como púrpura, ficarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como escarlate, ficarão como a lã" (Is 1,  18).

O profeta Isaías alertou o povo. Caminhar com retidão é uma forma de purificação dos pecados. Logo, a preposição "dos" nos dá ideia que que o pecado se dá de várias maneiras. Indo de encontro ao oráculo de Deus a Isaías, o pronome "seus" individualiza o pecado, a cruz que cada um carrega, e a conjunção "seja" e o superlativo do vermelho escarlate, mostra que temos dimensões aos pecados. São Paulo nos diz: "cada um de nós prestará contas de si mesmo a Deus" (Rm 14, 12). Essa reflexão individual de salvação nos leva a fazer uma reflexão sobre um tabu. Quero convidá-los a embarcar nessa viagem comigo, mas para isso, encham seus balões de oxigênio libertário, para que não precisamos emergir e respirar ar positivista, pois vamos além da plataforma continental e adentrar além da escuridão dos taludes da Palavra.

Nas formações pastorais, de qualquer movimento ou mesmo nas celebrações e missas, a Palavra de Deus é sucinta e objetiva. Algumas se estendem um pouco, outras são mais curtas, mas eu, particularmente, nunca vi uma leitura onde se lia a árvore genealógica de alguém. Portanto, quero chamar atenção para a arvore genealógica de Jesus, em especial, de duas pessoas. No Evangelho de São Mateus, vemos em Mt 1, 3, citar Tamar, e em Mt 1, 5, Raab. Latentes para boa parte dos cristãos, vamos tornar cognoscível suas histórias e sua participação em nossa fé cristã.

A história de Tamar está em Gn 38. Tamar foi uma mulher escolhida por Judá para ser esposa de seu filho primogênito. Segundo a Palavra, Her, o primogênito, desagradou a Deus (sem detalhes do que foi esse desagrado) e veio a morrer. Segundo a lei (Dt 25, 5), o cunhado tem que assumir o lugar. Onã, porém, não aceitava o fato de sua descendência se atrelar ao irmão mais velho, e não ejaculava em Tamar durante as relações. Teve o mesmo destino fatídico do irmão. Judá, ao perder dois filhos, prometeu a Tamar seu filho mais novo, Sela, quando tivesse idade adulta, porém, essa fora uma falsa promessa, pois se precaveu ao perder dois filhos. Tamar, com o passar dos anos, viu que Judá não entregou seu filho mais novo para ela, e decidiu por si só, fazer justiça. Tirou o véu de viúva e, já sabendo seu itinerário, ficou na estrada esperando-o passar. Judá, agora viúvo, pensou ver uma meretriz. Teve relações com ela sem saber, e lhe concedeu filhos gêmeos. Judá reconheceu seu erro para com seu filho caçula e Tamar, e Farés, um dos frutos dessa relação, também aparece na árvore genealógica de Cristo.

Já Raab era uma messalina que aparece no livro de Josué (Js 2; 6, 22-25). Antes do cerco de Jericó, Josué enviou dois homens secretamente para estudar o território da cidade para fazer a estratagema bélica. Pernoitaram no prostíbulo de Raab e foram descobertos, porém, ela os escondeu, salvando suas vidas dos homens do rei, e por conseguinte, fez um pedido, pois temia o Deus de Israel. Pediu para que os homens de Josué, que após tomarem Jericó, pouparem sua vida e a de seus familiares. O acordo foi cumprido posteriormente por Josué, que antes de incendiar a saquear a cidade, retirou ela e seus familiares, que ficaram seguros e tiveram sua vida como despojo.

Os mais ortodoxos vão ser diretos e condenar as prostitutas de hoje. Todos, pelo menos alguma vez na vida, vimos alguém com a Bíblia na mão nos aglomerados urbanos (calçadões, estações ferroviárias, pontos de ônibus e praças públicas, por exemplo) e comparando mulheres de roupa curta com amásias, usando fragmentos bíblicos como "Qualquer pecado que o homem comete fica fora do corpo. Mas quem se entrega á prostituição peca contra o próprio corpo" (1 Cor 6, 18) ou "as obras da carne são conhecidas: união ilegítima, impureza, libertinagem" (Gl 5, 19). São Paulo, ao alertar Corinto e Gálatas, orienta o homem para a retidão que mencionei no inicio do texto, onde meditamos Isaías, e o próprio Apóstolo, após o tremor da força do Espírito em oração quanto estava na prisão com Silas, disse ao carcereiro, que ao ver as celas e grilhões dos presos abertos, queria se matar: "acredite no Senhor e será salvo, você e os de sua casa" (At 16, 31). Podemos ver claramente que, condenar a pécora é um equívoco, pois Raab é lembrada na epístola aos Hebreus com carinho, e vista como exemplo de fé a ser seguido: "Pela fé, a prostituta Raab acolheu pacificamente os espiões, e não morreu com os rebeldes" (Hb 11, 31), e pelo Apóstolo São Tiago, sua obra foi posta a frente de sua posição de rascoeira, e faz uma indagação com ironia: "Vejam portanto, que a pessoa é justificada pelas obras, e não somente pela fé. Do mesmo modo, Raab, a prostituta, não foi justificada pelas obras, dando acolhida aos mensageiros e fazendo-os voltar por outro caminho? De fato, como o corpo sem o sopro de vida é morto, assim também a fé sem obras é morta" (Tg 2, 24-26).

A sexualidade é associada a depravação na maioria das vezes, principalmente na Sagrada Escritura. As passagens de atentado ao pudor violento como o que ocorreu com Dina (Gn 34, 2) e a concubina do levita que foi estuprada e morta (Jz 20, 5), assim como casos de incesto, entre pais e filhos, como com Ló, que após a destruição de Sodoma e Gomorra, foi embriagado e teve relação com suas filhas (Gn 19, 30-37) ou entre irmãos, como o caso de Amnon que estuprou sua irmã Tamar (não a nora de Judá), ambos filhos de Davi (2Sm 13, 1-22), são usados a exaustão como forma de aberração sexual. É um erro associar ações depravadas como essa a Raab e Tamar, pois elas são sim, ações condenáveis, diferentemente do que elas realizaram por fé. Outra abominação que descortinou-se há séculos em igrejas de denominações cristãs é o adultério. Sempre uma prática vista por uma ótica varonil, complanam-o a prostituição e condenação as mulheres, mas vemos que, por vezes, a mulher é acusada injustamente, como a bela Suzana (Dn 13. Por tratar-se de um trecho apócrifo em livros protestantes, vide em uma Bíblia Católica). Nos Evangelhos de São Lucas e São João, Jesus rechaça essa forma de rasourar adultério à prostituição, e vai na contra-mão desse módico feminino. Em São Lucas,  acolhe a "pecadora" que adentrou na casa do fariseu, dizendo: "Os muitos pecados dela serão perdoados, pois ela muito amou. Mas aquele a quem pouco foi perdoado, pouco ama. Sua fé a salvou, vá em paz" (Lc 7, 47.50) e em São João, salvou a mulher pega em flagrante em prevaricação, e iriam apedreja-la. A salvífica frase "quem de vocês não tiver pecado, atire a primeira pedra" (Jo  8, 7b) dispensa mais acréscimos.

Mas, voltando as vulgívagas, o que dizer do mito e lenda Sansão? Após a morte de sua esposa, se vingou dos filisteus assassinos e foi declarado juiz de Israel. Ao seguir sua jornada, em seu primeiro ato, a Bíblia narra da seguinte maneira: "Sansão partiu para cidade de Gaza, viu ai uma prostituta e foi para casa dela" (Jz 16, 1). Ainda no livro dos Juízes, outra história interessante de um juiz. Jefté era filho de Galaad, fruto de uma relação inter conjugal dele com uma cortesã (Jz 11, 1). Seus irmãos, filhos da esposa de Galaad diziam: "Não haverá pra você parte nenhuma da herança da casa de nosso pai, pois você é filho de outra mulher" (Jz 11-2).

A Teologia do Gueto sempre caminha com a máxima de amar o próximo. Nesse caso, recomendamos aos que condenam as prostitutas, que emanem a elas amor e misericórdia, e não se esqueçam do que foi recomendado por Jesus Cristo: "Hipócrita! Tire primeiro a trave de seu olho, e então você verá bem para tirar o cisco do olho de seu irmão" (Mt 7,5).

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Revolução e Liberdade

'Verificamos, de fato, que esse homem é uma peste, promove discórdia entre todos os cristãos do mundo inteiro, e é um dos adeptos da Teologia da Libertação. Ele tentou inclusive, profanar a Santa Missa, por isso o excomungamos'. 

A frase acima é um trocadilho da acusação que romanos fizeram diante do Apóstolo Paulo (At 24, 5, 6a). Nada de comparações, tão pouco permear heresias com cristianismo. Apenas quero partilhar com vocês minha experiência.

Era uma tarde de feriado prolongado, 2 de maio de 2014. Estava com dois amigos discutindo o fim do Principado, grupo de Rap Católico no qual fazia parte. Coincidentemente, o celular não parava de enviar mensagens, alertando de comentários na Fan Page que o grupo tinha. Eram aproximadamente de 25 a 30 comentários, num curto período de tempo. Achei estranho, pois o Principado não era um grupo muito conhecido, logo, resolvi verificar.

Eram pessoas que nunca tinha visto na vida, de locais diferentes, como São Bernardo do Campo, Rio de Janeiro, Salvador, Goiânia, dentre outras localidades. Seus comentários eram pejorativos, diminutivos e de fundamento arcaico. Copiavam e colavam posts de internet, links contendo vídeos do padre Paulo Ricardo e a falsa acusação a mim de apóstata comunista. Porque? Por defender a Ação Católica e movimentos como as Ceb's (Comunidades Eclesiais de Base). Lembrando que a Ação Católica foi concretizada por Papa Pio XI em 1935, e as Ceb's, na conferência católica de Medelin (Colômbia) em 1968 ganha o título de ação libertadora, e na conferência de Puebla (México), em 1979, a opção preferencial pelos pobres. Em um debate interminável, por fim, pararam os ataques. Hoje o grupo Principado não existe mais, mas aquele fato precisava de uma resposta.

Longe de mim criar sismas, por isso a Teologia do Gueto busca respostas no Evangelho. De acordo com São Mateus, Jesus deixa claro: "não julguem, para não serem julgados" (Mt 7,1). Eu, como todos os que defendem nossa ideologia, fomos julgados e condenados (segundo eles). Prefiro crer no que disse São Paulo, primeiro à comunidade de Corinto: "irmãos, eu lhes peço, em nome de Jesus Cristo: vivam em harmonia, sem divisões entre vocês. Sejam unidos no mesmo modo de pensar e no mesmo propósito"(1 Cor 1, 10); segundo a seu discípulo Timóteo: "quero, portanto, que os homens rezem em todo lugar, erguendo mãos santas, sem discussões" (1 Tm 2, 8). Ao falar mal de um cristão, estou falando mal de um irmão, de minha família. Seguir caminho diferente do seu significa traçar um caminho mais longo ou mais próximo do destino final. É equivalente a torcida de um clube de futebol: os torcedores organizados ficam na arquibancada, outros ficam na numerada, os elitizados compram camarotes. Cada um torce de seu jeito, em momentos cruciais da partida, uns vaiam e outros cantam, mas ao apito final, na vitória ou na derrota, o sentimento partilhado pelos torcedores, independente da sua posição no estádio, é o mesmo. A Igreja Católica é, e deve ser linear, mas não é e nem deve ser homogênea.

No meio do fervor das eleições de 2014, uma necromancia da fé surgiu. Padres santificaram até mesmo Tancredo Neves, para que ele intercedesse durante as eleições presidenciais. Durante esse momento e os 50 anos do golpe militar que se completaram em 31 de março do ano passado, resolvi dar uma resposta aos ataques.

Ai surgiu o Rap Revolução e Liberdade. Revolução para criar uma vicissitude nos dias atuais, onde fragmentos da Ditadura Militar no Brasil, como encarceramento em massa, prática de tortura e autos de resistência existem. Cristãos (independente da placa), tem que se perguntar o que Jesus Cristo acharia ao ver as torturas nas delegacias do DOPS e nos DOI-CODI, ou as ocultações de cadáver do Esquadrão da Morte? De acordo com São Tomás de Aquino, o melhor método e justo para ir contra uma tirania, é formar uma oposição politica e tentar destruí-lo (Tomás de Aquino - O Governo da Cidade no De Regno), e com respaldo do Papa Paulo VI, quando todos os meios de negociações pacíficas terminar, o povo pode pegar em armas para se defender (Gaudium Et Epes, 78). Liberdade, pelo que foi profetizado por Isaías (Is 61, 1-2), que Jesus leu na Sinagoga: "O Espírito Do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para anunciar a Boa Noticia aos pobres. Enviou-me para anunciar a libertação aos presos e a recuperação da vista aos cegos, para dar liberdade aos oprimidos" (Lc 4, 18-19). Oprimidos são todos, pretos ou brancos, homens, mulheres ou homossexuais, que arbitrariamente foram torturados, censurados e presos, apenas por pensarem diferente da ditadura. Tendo como base esses santos homens, e a Palavra de Deus, compus o Rap.

Foto: Arquivo Pessoal

Nomes como Dom Helder Câmara são lembrados nos versos. São Tiago nos disse: "Tomem os profetas que falaram em nome do Senhor, como exemplo de sofrimentos suportados com paciência." (Tg 5,10), e outros, como os Freis Betto, Fernando e Ivo, como a epístola aos Hebreus nos ensina: "Lembrem-se dos presos, como se vocês estivessem presos com eles" (Hb 13, 3a), e não poderia deixar de citar, Frei Tito de Alencar Lima: "Lembrem-se dos torturados, pois vocês também tem um corpo" (Hb 13, 3b).

No inicio, usei as palavras de São Lucas do livro dos Atos para descrever como o tribunal de Cesárea julgara São Paulo. Acusaram-o por provocar discórdia entre os judeus, por seguir a "seita cristã" e por profanar o culto pagão. No meu caso, foram os tribunais virtuais dos fiscais da fé, a Neo Inquisição do século XXI, que me acusou de heresia.

Por fim, quero deixar claro que não quero ser um John Wycliffe ou John Huss, mas a Teologia do Gueto busca o amor ao próximo, e fatos históricos devem ser do conhecimento de todos. Revolução e Liberdade!!!

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Dinheiro Miserável


Por Marcelo Rock*

"(...) Eu jamais cobicei de ninguém, nem prata, nem ouro, nem vestes. Vocês mesmos sabem que estas minhas mãos trabalharam para as necessidades minhas e dos que estavam comigo. Em tudo lhes mostrei que, trabalhando assim, é preciso ajudar os fracos, recordando as palavras do Senhor Jesus que disse: 'Há mais felicidade em dar do que receber'" (At 20, 33-35).

Por que será que as palavras de Paulo direcionada aos anciões de Éfeso, narrada por São Lucas no livro dos Atos dos Apóstolos, não logra êxito nos dias de hoje? Quando dizem que o dinheiro não é tudo duvidamos, já que se vive em um mundo movido por ele. Como já diria o cantor rei do brega Falcão: "O dinheiro não é tudo, mas é 100%..."

Ver acontecendo manifestações populares nas ruas, ou a misérias dos que estão á margem da sociedade econômica é lugar comum. Afinal, a desigualdade está ai para todo mundo ver. Mas imaginar um grupo de jovens quebrando e saqueando lojas num país de primeiro mundo, é meio estranho. Algo parecido com os “rolezinhos” que envolviam crime em alguns shoppings de São Paulo e sua região metropolitana.

Apesar da enorme diferença de que um deles aconteceu na distância de um país de primeiro mundo, com a moeda mais forte da economia global, a libra, os motivos são muito próximos. A falta de dinheiro não é pior que a falta de sentido ou proposito na vida. Alias, aproveitando-se disso os consultores da autoajuda e os gurus da prosperidade dizem que tudo começa com a vontade, o desejo. A pessoa traça um objetivo e o persegue. Com isso, pregam que o alvo maior da vida é ser milionário e que a conquista do sucesso é a conquista da prosperidade financeira tendo o dinheiro como um fim em si mesmo.

Foto: MorgueFile

Mas a simples motivação de ter dinheiro é vazia. Caso contrário, as pessoas mais felizes e realizadas seriam as pessoas com salários mais altos ou milionários que ainda não foram pegos numa intervenção da polícia federal. Também nesse pensamento de que o dinheiro é o sentido da vida, podemos ver os que tentam cortar caminho para consegui-lo de forma mais fácil. Temos crianças e adolescentes que sonham com uma vida de jogador de futebol reconhecido em um grande clube. Ou mesmo as pessoas que desejam ardentemente ganhar o prêmio máximo da loteria.

A quantidade de jogadores que morrem no anonimato com salário mínimo e os que voltam a ser pobres em poucos anos após receber o premio milionário da loteria também provam que a afirmação do inicio do texto está correta.

Uma variação bastante popular é a conquista do poder. Muita gente acredita que a combinação entre dinheiro e poder é perfeita. Outro engano grave. Haja vista nossos políticos. Essa mistura é veneno para alma. A falta de nobreza e o excesso de cobiça no coração do politico trava o desenvolvimento do país. Nos alertou São Paulo na epístola a Timóteo: "(...) A raiz de todos os males é o dinheiro (1 Tm 6, 10)".

Enfim, em nenhuma dessas afirmações anteriores concluímos que o dinheiro resolve, traz sentido, salva as pessoas ou um país da falência. O enaltecer do sucesso financeiro ou do reconhecimento apenas através do dinheiro pela sociedade é que provoca o mal maior.

As almas vazias acreditam que se encherão de sentido e significado quando a conta no banco tiver saldo alto e na mão um cartão de crédito internacional sem limite. Os jovens frustrados dos rolezinhos ou dos saques às lojas em Londres, veem a sua frente o que não podem ter, e como a sociedade se resume a isso, em seu limitado universo, eles querem ter e fazer parte dela à força. Ainda usando a atemporalidade de São Paulo a seu discípulo Timóteo: "Se tivermos o que comer e com o que nos vestir, que nos contentemos com isso" (1Tm 5, 8), vemos que judeus, gentios e anciãos contemporâneos não entenderam que o dinheiro é miserável.

Eis ai o grande desafio do Evangelho: mostrar que somos miseráveis, se só temos dinheiro...

*Colaboração para o blog

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O que é a Teologia do Gueto?


Teologia é a junção de duas palavras gregas: Theos = Deus + Logos = palavra, assunto ou tratado. Usando seu termo etimológico, Teologia significa assunto, tratado, ou estudo sobre Deus.

Portando, associar Deus e Teologia a igreja é algo muito comum. Esse estudo sobre Deus é abstrato, e para se concretizar, Ele ganhou inúmeras "formas". Os aborígenes da Oceania não tiveram contato nenhum com os incas Sul-americanos, e mesmo assim, pregavam o politeísmo e semelhanças em suas divindades. O que quero dizer é que, mesmo alguns dedicando-se e mergulhando nas fossas abissais de escritos sagrados como a Bíblia cristã durante toda a vida - como o monasticismo e os monges eremitas - podemos ver que, num passado distante com tribos em locais longe da filosofia grega e do principio teológico, o ser humano dava "formas" para Deus.

Da mesma maneira que o letrado Carlos Drummond de Andrade fora poeta, a semi-analfabeta Carolina Maria de Jesus também o foi. Seguindo essa linha de raciocínio e desconstruindo  mais uma vez a palavra, assuntos relacionados a Deus podem ser classificados como Teologia, ganharem composição e terem "forma", e não somente estudos de escrituras sagradas e biografias de líderes religiosos, sejam eles da antiguidade como Confúcio e Lao-Tsé, ou mais contemporâneos, como Joseph Smith Junior e Mokiti Okada. Assim, assuntos de Deus podem ser debatidos fora dos muros da universidade e das instituições religiosas, da mesma forma que a negra favelada do Canindé tornou-se uma das maiores escritoras do país. Por conseguinte, ateus e agnósticos podem dar sua "forma" a Deus fora de dogmas ou doutrinas religiosas, classificando Deus como um deus que criou o universo, ou ponto de partida para a criação, seja ele um ser ou força motriz.

A Teologia do Gueto tem ênfase e embasamento cristão na figura de Jesus Cristo como libertador, que quebra grilhões reacionários, com sua simplicidade e seus ensinamentos sapienciais. Cristo mostrou a humanidade regras simples de convivência, das quais uma é básica: "ame ao Senhor seu Deus com todo seu coração, com toda sua alma e com toda a sua mente" (Mt 22, 37; Mc 12, 30) e "ame seu próximo como a si mesmo" (Mt 22, 39; Mc 12, 31). Jesus nos ensinou que esses são os maiores mandamentos de Deus, amá-lo sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo, e que toda Lei e os Profetas dependem disso.

A pintura de Maximiliano Cerezo Barredo, na Catedral da Prelazia de São Félix do Araguaia

Seguir a orixás, kamis, Buda ou simplesmente ninguém, é secundário diante desses mandamentos. Portanto, a Teologia do Gueto faz uso deles, e não se manifesta por placas de igreja, dogmas ou doutrinas. É livre para qualquer um que segue o que Jesus ensinou por meio dos Evangelhos sinóticos de Mateus e Marcos em 2 versículos bíblicos, mesmo não sendo cristão. Eles são a base de 73 livros, 1328 capítulos e 40030 versículos da Bíblia que os católicos usam desde 1572.

Eu, Orlando Jay, por meio de assuntos cotidianos e periféricos, linco-os com o Evangelho dando "forma" a Deus, e qualquer pessoa que seja capaz de desenvolver no seu dia-a-dia esses dois mandamentos de Jesus, que está acima da Lei (religião) e profetas (lideranças religiosas), seja em um sarau de poesia, letra de Rap, visitando um preso, dando alimento a quem passa fome ou cobertor a quem passa frio, é um teólogo do gueto. Amar e Deus e o próximo, é a base sólida em que estamos alicerçados, e esses assuntos de Deus, na etimologia teológica, veremos nos próximos posts, com a colaboração dos historiadores Marcelo Rock e Ellen Oliveira.

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