Funk do Nada




* Por Marcelo Rock

"É melhor ser modesto e ter um só empregado, do que bancar o rico e passar fome" (Pr 12, 9).

Muitos podem associar o que disse o Rei Salomão aos "funkeiros" que falam de algo abstrato, talvez de um sonho muito distante. Mas...não é bem assim. Diferentemente de outros tempos, o funk como é conhecido hoje é em parte um grito desesperado de uma geração que quer atenção. E em outra, a manifestação sem violência física, porém, violência conceitual e verbal dessa mesma geração que parece tentar mostrar algo. 

É claro que isso não é pensado, mas é transmitido. Ele traduz o grito e oficializa a reclamação. Principalmente o FUNK ostentação e o de cunho sexual obsceno. É como se os jovens estivessem querendo dizer:  “Não nos ignorem, vejam o que estamos fazendo, e escutem o que estamos dizendo!”. O mundo pelo qual lutamos é esse. Com liberdade de expressão, porém, a liberdade é usada sem um aferimento, sem uma regra que faça valer. Mas antes de entrar nisso vamos tentar responder: Porque o FUNK é um grito de desespero por atenção? Gerações e mais gerações sofrem de desamparo, e consequentemente, por não ter, em uma época correta da vida, esse afeto, desconhecem isso, e possuem uma lacuna. São pessoas lacunares, falta-lhes algo e não são estudos, nem ensino, cursos, treinamento, nada disso. É algo que vai muito além, e que provavelmente não será possível de ser reposto. Trata-se de uma falta quase impossível de ser corrigida e compensada. Em outros tempos, essa falta, essa ausência, era preenchida por lutas e reinvindicações, manifestações pela liberdade e contra as guerras. Hoje não temos isso, porque, aparentemente, já conquistamos essa liberdade. Mas, o que provocou isso então?

A família se perdeu nas consequências da busca desenfreada do consumo, e da liberdade inconsequente. Consumo porque, a ideia social á muito tempo é provar pra todo mundo que você é alguém, através daquilo que você tem e não do que você é. Daquilo que você compra, dos lugares que frequenta, e de tudo o que você consome em um sentido amplo. Desde coisas á pessoas. Podemos dizer e aplicar isso, em todos os âmbitos sociais. As pessoas mais cultas querem que percebam e digam que elas são mais cultas, e procuram os mais renomados autores, os livros mais “cabeça”, e tentam MOSTRAR pra todos que são consumidores de cultura elevada. Já outras pessoas, procuram em mesma medida, dentro de seu entendimento, coisas que “agreguem” valor á elas, na busca da autoafirmação do eu posso, eu tenho, eu consumo, portanto “eu sou”. Mas esse “EU SOU”, é explicito através daquilo que se tem e não do que se é de verdade. Quando alguém é, não precisa ostentar mostrar, muito menos provar nada pra ninguém. Mas para perceber isso é necessário tempo e conhecimento do indivíduo, um aprofundamento do ser. Em resumo as pessoas acabam por ceder á essa pressão social e ao mesmo tempo, tentam matar essa fome, encher esse espaço faltante com o que consomem.

O outro ponto é a liberdade inconsequente. Ao mover-se para conquistar o direito de fazer o que se quer, deixamos de nos importar propositalmente com algumas coisas. O sexo livre, por muito tempo, foi símbolo de pessoas bem resolvidas, e que tem poder de escolher o que fazer com suas vidas e com seus corpos. Até ai ok. O problema surge quando essa postura começou a gerar mães que não queriam ser mães ainda. Não nessas condições nem tão pouco com essa idade. Também pais sem uma infraestrutura para oferecer, e avós que acabam ficando com a tarefa de criar os netos. As famílias não são mais nucleares e, portanto, as referencias de pai e mãe morando sob o mesmo teto não existem mais, ou são bem raras. E mesmo morando juntos, o referencial paternal, o modelo de pai, já não serve como referencia. Essa liberdade inconsequente fez nascer gerações de crianças em lares mistos e famílias sem a estrutura tradicional. Pode até ser uma inovação, porém, uma inovação nociva, haja vista o resultado disso.

A segunda afirmação, sobre o FUNK ser uma manifestação de uma geração que quer dizer algo, esta diretamente relacionada ao consumo. Somos todos bombardeados por uma quantidade massiva de propaganda que é apelativa como nunca antes, e que empurra várias gerações para os Shoppings Centers. Porém, nem todos conseguem comprar. Muitos vão para passear, porque não tem muito que fazer, e já que o shopping é o símbolo máximo do universo que é pregado, ou seja, das coisas, do poder e valores que importam hoje, porque não estar ali?

Nesse passeio, o indivíduo se sente incluso socialmente, porém, de forma ilusória. Ali se vê tudo o que se gostaria de ter, mas, não se tem. Isso provoca uma impotência revoltante. Como vou comprar se não tenho dinheiro? E esse comprar, se transforma em algo sagrado, porque, parece oferecer uma atenuação da necessidade, ou do preenchimento da lacuna que falamos antes, o buraco existencial. “... O presente não devolve o troco do passado, sofrimento não é amargura, tristeza não é pecado, lugar de ser feliz não é supermercado...”. Zeca Baleiro.

Ai nesse contexto entra o FUNK, como a voz desses que acham nessa música “subversiva” um modo de se manifestar contra a falta de tudo, na busca de tudo. Tanto para mostrar, ou no caso, ostentar, como na tentativa de preenchimento. É como se estivessem gritando:  “Então é isso, ter as coisas é mais importante, é mais importante que atenção, abraços, afeto, carinho, presença, ok, então vamos lá!”. Ai os valores se invertem, e as coisas passam a ser mais importantes que as pessoas. Afinal, a nova religião imposta pela sociedade atual é: Só se É, quando se TEM, então, quando não se TEM, não se É. É evidente que esse é um grito inconsciente, que vê nesse tipo de música uma tradução do que se quer dizer. Mas ninguém tem essa ciência, porém, os jovens se identificam. Outra pergunta surge: O rap ou hip-hop, o Rock, as manifestações da MPB como, por exemplo, o Tropicalismo, já não eram manifestações musicais que traziam isso em seu bojo? Sim! Porém, são de época diferente, falando a língua e traduzindo o grito de uma geração do passado. E hoje, por incrível que pareça como tudo é facilmente descartável, assim como produtos que consumimos e trocamos, ideias e ideais viajam no tempo indo fazer parte do passado de forma muito mais ligeira do que nunca. 

Algumas pessoas, que viviam em tempos atrás, crendo e lutando por algo, por achar importante, hoje veem os motivos pelos quais lutaram, e até mesmo, as conquistas, serem enxovalhadas e sofrer chacota. Viraram motivo de piada, e não tem a menor importância ou qualquer valor imediato para a juventude atual, isso segundo eles próprios. Esses antigos rebeldes, não conseguem ver o sentido, nem a razão dessa desvalorização por parte desse novo movimento de expressão tão massivo. E isso ocorre ao mesmo tempo em que esse passado recente é revisitado constantemente, de maneira ufanista e ultra nostálgica. 

As mudanças são tão rápidas que não ha tempo de degustar, aproveitar, chegar à exaustão daquilo que se conseguiu ou passou a conhecer ali naquele momento. É como uma criança com um brinquedo seminovo, ele logo perde a graça porque ela ganha outro mais novo, então, o valor em si é dissolvido, diluído e facilmente suplantado com a chegada do supernovo. Mas não somente isso. A desvalorização constante provoca insegurança e medo. Logo se faz necessária, essa revisitação constante, esse “revival” de um tempo aparentemente mais inocente, menos mercenário, quando se acreditava ter mais alma e significado em tudo do que se tem atualmente. Parece que os próprios produtos e a cultura geral da época passada duravam mais tempo ou tinham mais qualidade.

Mas não se trata disso, e sim, do que significavam na época.  Você esperava meses por um filme, eram poucas as músicas e bandas que alcançavam o grande publico. Havia menos divulgação, menor alcance. Quando se conhecia algo, aquilo tinha um valor maior, porque o próprio conhecimento em si, de qualquer coisa, era difícil de obter ou mesmo divulgar. Por isso, parecia ter mais qualidade, mais peso, e quanto mais difícil, mais valor. Nietzsche dizia: “Assim que comunicamos nossos conhecimentos, deixamos de gostar deles o bastante”.A massificação de algo faz com que haja uma subtração de valor. Aquilo se torna vulgar, e consequentemente, para a atual geração, descartável. Isso tudo não é tão recente, podemos dizer que ocorre de 40 anos pra cá. Porém, só esta explodindo em nossa cara, porque além de vivermos em num tempo totalmente novo, apesar dos problemas já serem velhos, provocamos impensadamente o acumulando de diversos sentimentos que foram sendo anestesiados com o tempo através das lutas que achávamos importantes. E foram realmente importantes, porém, hoje vemos que são Vitória de Piro. Será que ainda não estamos preparados para usufruir de nossas próprias conquistas? Ou ainda não conquistamos nada?

Voltando a liberdade que julgamos ser usada indevidamente, e que pela qual lutamos tanto, acredito que no momento em que nos vimos livres, não sabíamos o que fazer com essa liberdade. Então, resolvemos quebrar com os paradigmas e abandonar tudo que nos remetia á um tempo onde essa liberdade não existia, ou não era sentida. Porém, há um agravante nisso. O nosso sonho de liberdade era ir além, e muito além de onde nossos pais foram em todos os sentidos. Mas o mundo que surge diante de nós para ser desbravado, não é o mundo da época de nossos pais. Trata-se de uma realidade muito diferente e uma versão piorada de tempos idos, que nós mesmos construímos com nossos esforços e lutas pela liberdade. Uma realidade onde não conseguimos alçar nosso tão desejado voo, e acabamos como Ícaro, num breve e medíocre planar com asas de cera, numa ascensão muito rápida em direção ao sol. 

O FUNK ri do mundinho idealizado que tentamos criar, ele debocha de tudo: Valores familiares, tabus sexuais, educação, relacionamentos sérios e comprometidos, enfim, todo o comportamento social. Isso tudo sem ao menos se preocupar em colocar uma proposta em pauta, afinal, ele é, em si mesmo, o resumo e a tradução do nada que temos hoje. Apenas coisas, e não pessoas. E se essas coisas são descartáveis, então, não se tem nada.

Kant dizia algo a respeito das coisas e pessoas. Ele afirmava que as coisas são definidas por preço, e pessoas, por dignidade. Então, de uma forma simples, podemos afirmar que quando as pessoas passam a ter um preço, elas viram coisas, e perdem a dignidade. Pior que isso, elas perdem também o significado, a alma. São apenas produtos numa prateleira e esses produtos em que nos transformamos, são descartáveis. De tanto olharmos para o abismo, passamos a fazer parte dele. De tanto consumirmos, nós nos tornamos produtos a serem consumidos também.

Faltam respostas aqui com objetivo de resolver tudo isso. Mas ai é que esta. Nosso tempo parece nos trazer apenas perguntas. O sentimento é de que estamos no limiar de algo, que esta para acontecer, e que irá mudar o curso da história, ou simplesmente, nos forçar a mudar. Uma escolha que devemos fazer, ou então, seremos obrigados a aceitar aquilo que escolherem para nós. Esse novo tempo é uma transgressão de tudo que se entende e do que já vimos. Questiona tudo e apesar de parecer, não repete nada. Desfaz-se de tudo que já se sabe até aqui, e procura ás segas um novo caminho. O FUNK é apenas um sinal disso, uma pequena manifestação de que falta algo, e alguma coisa precisa mudar só não se sabe quem fará isso, e muito menos o que deve ser feito. Trata-se de uma herança que vem desde os séculos XIX e XX, onde vemos o desmoronar das antigas ordens mundiais, mas, sem um novo caminho para trilharmos. Um ciclo sem fim de rupturas e desconstruções. É cômodo de certa forma olhar o passado e ver como grandes crises e questionamentos da sociedade foram sendo resolvidos e os mistérios desvendados, e como isso trouxe mudanças brutais na forma de pensar e agir das pessoas. Porém, estamos no meio desse processo, e o que nos consome é não saber e ao mesmo tempo, saber demais e não nos sentirmos satisfeitos. iniciamos e concluiremos com o Rei Salomão: "A pessoa pode achar que sua conduta é certa, mas é o Senhor quem examina as consciências" (Pr 16, 2).

* Colaborador do Blog

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Não Subestime Quem a Criou

(Fonte:www.kraftfuttermischwerk.de)

"Tudo bem, bem o que vem então é da natureza; mas não subestime então quem a criou." (De Menos Crime  Fogo na Bomba).

A frase acima é extraída do Rap do grupo De Menos Crime intitulada "Fogo na Bomba". Não subestimar quem criou a Cannabis Sativa, é o que o Rapper diz em seus versos. Discriminar quem fuma maconha, na visão do MC, se equivale a subestimar os desígnios de Deus por ter criado a planta. Por motivos óbvios, a musica gerou muita polêmica, pois por muitos foi rechaçada, e para outros, um hino para legalização. 

Nós da Teologia do Gueto resolvemos buscar, por intermédio da Palavra, meios para estabelecer uma relação entre o que fora dito pelo rapper Mikiba no inicio da blogagem, e sua posição como exegese ou falácia. 

Concluímos que a confluência existe! Mas para isso, se faz necessário analisar profundamente e criticamente as Escrituras para absolver o que queremos dizer. Primeiramente, vamos ver o que a Bíblia diz em relação ao vinho. Porque essa reviravolta? Para compreender primeiro o que a Palavra difere de beber eventualmente e saborear a bebida ao pecado da embriaguez. Jesus Ben Sirac, um judeu da diáspora, autor do Livro do Eclesiástico (se faz necessário ter uma Bíblia Católica em mãos para acompanhar o trecho) diz que "O vinho traz vida aos homens, desde que você o beba com moderação. Que vida existe quando falta o vinho? Ele foi criado para alegrar as pessoas. Bebido em tempo certo e na medida certa, o vinho trás gozo para o coração e alegria para a alma" (Eclo 31,27-28). Logo, concluímos que o vinho é algo prazeroso e que, degustado eventualmente e na dosagem certa, trás alegria as pessoas, mas, adverte para seu demasiado uso: "Todavia, bebido em excesso, por vício ou por desafio, o vinho traz amargura para alma. A embriagues aumenta a ira do insensato para sua própria ruína, diminuindo-lhe as forças e provocando ferimentos" (Eclo 31,29-30). O Rei Salomão também alerta sobre seu uso em demasia: "O vinho provoca insolência, e o licor causa barulho: quem se embriaga com eles não chega a ser sábio. Não fique fascinado pelo vinho, vendo sua cor e seu brilho, enquanto escorre suavemente pelo copo. No fim, ele morde como cobra e fere como víbora. Então seus olhos verão coisas estranhas, e sua mente imaginará coisas absurdas" (Pr 20, 1;23,31-33). Que conclusão temos então da bebida alcoólica, e o vinho em especial? Que seu uso não é restrito, e que se usada de maneira correta, pode ser prazeroso e agradável.

Mas voltemos a maconha. No livro do Gênesis, temos um versículo importante na qual as ervas são criações divinas: "Vejam! Eu entrego a vocês todas as ervas que produzem semente e que estão sobre a terra, e todas as árvores em que há frutos que dão semente: tudo isso será alimento para vocês" (Gn 1, 29). Segundo o gênesis, Deus disse todas! Se Ele disse todas, incluímos também a Cannabis Sativa. Porque? A Cannabis Sativa pertence ao grupo das Angiospermas, ou seja, é um vegetal que possui sementes, flores e frutos. Quando Deus diz que será alimento, esse alimento poderia também ser espiritual. Se na sua concepção você achar isso um estapafúrdio, imagine ao cético crer que Jesus se faz vivo na Eucaristia? Um Deus que se faz vivo em um pedaço de pão? É difícil contrapor esse argumento com alguém sem fé. Negar a Cannabis Sativa como uso espiritual e profaná-la, pode se configurar como um erro teológico. Seu uso pelos Rastafári é concluente com as palavras do Criador no Livro do Gênesis. 

Aceito (ou não) a ideia da Cannabis Sativa como obra de Deus, vamos ao Livro dos Salmos: "Tu fazes brotar relva para o rebanho, e plantas úteis para o homem" (Sl 104, 14). Sua "utilidade" é encontrada no tratamento de esclerose múltipla (como no caso famoso de Montrel Williams), Mal de Alzheimer (cujo THD da Cannabis Sativa, de acordo com Scripps Institute, nos EUA, é um elemento de grande auxilio contra a doença), crises convulsivas (uso de Canabidiol) Mal de Parkinson (artigo da revista Journal of Psycopharmacology, da Associação Britânica de Farmacologia, comprova a sua eficácia) e até mesmo, câncer (de acordo com a AACR - American Association for Cancer Research, nos EUA, a Cannabis Sativa desacelera o processo das células cancerígenas), são alguns exemplos de sua "utilidade" ao homem. Se ainda não consegue aceitar a Cannabis Sativa como criação divina, aceite pelo menos que há uma afluência entre o Salmista e as comprovações científicas citadas. 

Para concluir, a Teologia do Gueto não quer, de maneira nenhuma, citar apologias ao uso de maconha ou não. Apenas propomos uma visão teológica de trechos bíblicos e o influxo das informações. Usando os exemplos do vinho, a Cannabis Sativa teria o mesmo efeito, ou seja: usado de maneira incorreta e abusiva, causam muitos malefícios e nada benéfico. O problema em imaginar a maconha como uma criação divina é simples, pois a primeira visão de falar em Cannabis Sativa nos remota ao baseado de maconha, tráfico de drogas e associações pejorativas a seu uso. Vale lembrar que, a Pastoral Carcerária e outros movimentos sociais e de direitos humanos, acreditam que, descriminar o uso de maconha para consumo próprio, como por exemplo, para fumo, diminuiria em 30% a população carcerária do Brasil. Mas isso seria outra história e outra blogagem... 

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Sl 79, 11

(Fonte:Latuff)


A Teologia do Gueto acompanha a situação nos presídios do país e nos posicionamos quanto à crise penitenciária que vem sido veiculada nas grandes mídias e redes sociais como uma noticia tenra. A origem do titulo da blogagem é um apelo, descrito pelo salmista Asaf, quando narrava à situação dos cativos na Babilônia: Chegue a tua presença o gemido do cativo: com teu braço poderoso salva os cativos da morte (Sl 79, 11). Não fazendo falácia teológica, mas a situação dos detentos no Brasil equivale a de um exilado babilônico, privado de seus direitos, liberdade e jogado a própria sorte.       

A Pastoral Carcerária, junto com outras organizações e movimentos sociais, criou a Agenda do Desencarceramento, não vista com auspícios e sim, de maneira pejorativa por conservadores e a classe elitizada do país. Vemos a agenda com bons olhos, haja vista que somos oriundos da periferia e sofremos (sofremos e continuamos sofrendo) com a violência e despreparo da segurança publica que age com repressão e violência, principalmente para com o jovem negro e pobre da periferia que, perpendicularmente, sai de seu bairro distante dos grandes centros em um transporte público caro e de má qualidade, fazendo o itinerário para local de trabalho, estudo ou mesmo lazer, e não ter a certeza de retorno para casa, podendo ser preso ou assassinato, tornando-se estatística dessa macabra matemática classista que preferimos classificar como vitimas do despreparo do sistema.

Voltando a crise penitenciária, vemos que o encarceramento em massa e a violação dos direitos humanos atrás das grades gera o estopim que vemos hoje: as rebeliões e assassinatos nos complexos penitenciários brasileiros teve como proemio a conivência do Estado. A população carcerária do Brasil cresce em progressão geométrica, em contrapartida, o encarceramento maciço e a lentidão no judiciário que analisa de forma aritmética os encarcerados é um dos problemas graves que analisamos, pois essa progressão macabra de encarceramento transforma as penitenciarias e centros de detenção provisória do Brasil em verdadeiros depósitos de seres humanos. A falta de politicas públicas e o abandono do Estado para com o preso, o deixando no ócio e em condições sub-humanas, consequentemente geram rebeliões e assassinatos dentro dos complexos penitenciários, onde em um ambiente hostil, os desentendimentos tornam-se uma constante, e dialogo e mediação na maioria das vezes não é possível. Para essa situação, lembremo-nos de Isaias e o oráculo de Deus: para você abrir os olhos dos cegos, para tirar os presos da cadeia, e do cárcere os que vivem no escuro (Is 42, 7).

A humanidade sempre atrelou justiça com punição. Prisões existem há milênios, e sempre houve fugas, rebeliões e assassinatos. As secretarias de segurança pública e administrações penitenciais tem ciência de que mais presídios e politicas de encarceramento (como por exemplo, redução da maioridade penal), não diminuirão a violência. Como somos cristãos, buscamos observar a situação como Cristo faria. E ai nós indagamos: será que Cristo apoiaria invasões das tropas de choque para agredir os presos rebelados? Acharia conforto o preso ter uma biblioteca com livros em boa condição e um rádio para acompanhar e se informar do mundo externo? Acharia injusto que presos terem cursos profissionalizantes e oficinas para desenvolverem seus talentos e ofícios? Acharia folga os presos terem o mínimo de condições de higiene e alimentação?  Creio que Jesus deixou clara essa mensagem a nós por meio da epístola aos Hebreus: lembrem-se dos presos, como se vocês estivessem na prisão com eles. Lembrem-se dos torturados, pois vocês também tem um corpo (Hb 13, 3). Chegamos a conclusão de que Jesus olharia a atual conjuntura da situação penitenciária em nosso país com uma face macambúzia.

O que buscamos? Um mundo mais justo e equitativo, em que todos possam ter as mesmas oportunidades. Quando Jesus iniciara sua vida pública, voltou a Galileia e pregara em uma sinagoga a profecia de Isaias: O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Notícia aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos (Lc 4, 18. Vide Is 61, 1). Por essa ótica, fica claro que Jesus Cristo busca essa equidade social e um mundo sem grades de ferro. Partilhamos a ideia que, o encarcerado deve ser visto como um ser humano, se ressocializar e ser redimido de seu erro. Para isso, seguimos contra a politica do encarceramento em massa e por uma justiça restaurativa, pelo bem comum e pela dignidade humana. Pois Cristo diz dos que olha com misericórdia aos encarcerados: Eu estava na prisão, e vocês foram me visitar (Mt 25, 36b).

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Ressaca Teológica

Foto: MorgueFile

"Teremos luzes, festas, árvores luminosas e presépio. Tudo falso: o mundo continua fazendo guerras. O mundo não entendeu o caminho da paz" (Papa Francisco)

As palavras do Papa Francisco pronunciadas dia 19/11 em homilia na Casa Santa Marta são a encetadura da Teologia do Gueto para reflexão do Natal. Sabemos que a data é oriunda de uma festa pagã, e que é amplamente questionável o nascimento do Messias dia 25 de Dezembro. Mas, esse encetativo introdutório pelo Papa é a visão da Teologia do Gueto sobre o Natal, e a partir disso, vamos refletir não somente sobre o nascimento, mas como o mundo mudou após o primeiro choro de Jesus. 

De acordo com relatos históricos extraídos de uma conjuntura de livros chamada Novo Testamento, sua mãe engravidou antes do casamento, algo inadmissível e punido com morte (Lv 20, 10. Maria, uma adolescente grávida antes do casamento prometida a um homem, seria classificada e rotulada como adúltera, importante refletir sobre esse auspícios social), mas seu corajoso pai adotivo assumiu-o como sendo seu filho. Essa desequilibrada família (mesmo aos moldes contemporâneos de hoje seria considerada desequilibrada), pobre, cuja renda estava restrita a carpintaria, teve o menino em uma manjedoura, na mais completa miséria. Mas não foi "só isso". Em virtude de um decreto da tirania, essa desequilibrada família pediu abrigo a nações estrangeiras, e ali viveram como refugiados. Importante aqui refletirmos sobre o que a Palavra nos ensina sobre os refugiados: "Não oprima o refugiado. Vocês conhecem a vida do refugiado, porque foram refugiados no Egito" (Ex 23, 9). Não é importante refletir sobre o que ocorre como s sírios, por exemplo? A guerra civil Síria assemelha-se com o decreto de Herodes (Mt 2, 16), onde a Sagrada Família migrou de sua terra natal contra sua vontade.  

O menino, mesmo sob as condições adversas, cresceu saudável, e aos 12 anos, de volta a Israel, já incomodava o sistema ditatorial que se instalou em sua pátria: o Império Romano, mesmo nessa tenra idade. O filho do carpinteiro era eloquente, e ao ser questionado, tinha todas as respostas. Isso abalou as estruturas dos reacionários. Com parábolas, ensinava o povo oprimido a pregar a caridade, fraternidade e humildade, o contrário do que o sistema ditador pregava, que era a intolerância religiosa e a cobrança de altas taxas de impostos, gerando miséria e discrepantes classes sociais por Israel.

Uma legião dos grupos sociais excluídos passou a seguir o jovem, que mais tarde, foi acusado de subversivo pelo sistema. Com argumentos pífios, tentaram persuadir o povo, que cansado de tanta opressão, apoiou o jovem revolucionário. Com a argumentação de agitador e de ameaça a ordem pré-estabelecida, o jovem recebeu voz de prisão. Um de seus discípulos, corrompido pelo ato de possuir, foi comprado e entregou o jovem, que estava no auge de seus 33 anos. 

Foi preso e barbaramente torturado nos porões. Resistiu as torturas e manteve sua ideologia de uma sociedade igualitária e justa, mesmo sobe a ameaça de morte. Sem uma base sólida para incriminá-lo, o esquadrão da morte precisava calar o jovem, e os soldados do império o levaram a morte mais humilhante de todas: a crucificação. Carregou sua própria cruz até o abatedouro, recebendo açoitadas, pedradas e pontapés em avenida pública, sendo humilhado por seus algozes de armadura.

Com a carne perfurada com pregos e com uma lança, foi pendurado por horas até as últimas gotas de sangue, suor e lágrimas caírem de seu corpo. Resistindo bravamente o quanto pode. Sustentou a sua ideologia, e calado, sofreu até o último suspiro de vida ao lado de dois prisioneiros políticos, e tendo aos pés da cruz que estava pendurado, sua mãe, que como tantas outras, até a presente data, perderam seus filhos inocentemente, sem antecedentes criminais, sob a falsa acusação de pregar subversão. Todos os que apoiaram sua ideologia, foram presos, torturados e mortos.

Que as pessoas se enchem de altruísmo no Natal, eu já acho o oposto. Natal é o momento em que  a maioria de nós gastamos o 13º salário comprando presentes, roupas novas e comida na mesa, em ampla exploração do capital. Como disse o sapiencial Rei Salomão, pensamos nas filas ou no alto custo, o que importa é comer, vestir-se bem e presentear os outros. Salomão nos alertou que tudo é ilusório (Ecl 1, 2. Vide na íntegra a matéria O Homem de Areia e Vento), e não observamos a chuva que caiu no dia de Natal, e as pessoas sem teto como Jesus que não podem se aquecer, se alimentar, se vestir, e até mesmo se abrigar. Jesus foi enfático ao dizer: "Quando der esmola, que sua mão esquerda não saiba o que a direita está fazendo, de modo que sua esmola seja dada em segredo. E seu Pai, que vê em segredo, compensará você" (Mt 6, 3-4).

O Natal parece uma peça de teatro, um universo paralelo onde sonhamos e nos anestesiamos das dores que a vida nos dá, porém, após o último ato, a peça finda e despertamos do espetáculo de sonhos.  A Teologia do Gueto propõe uma reflexão pós-natal, as consequências, o que Jesus fez por nós. 

Uma boa ressaca teológica de Natal, após embriagar-se com falsas ilusões natalícias...

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Só Acredito Vendo

Foto: Morgue File

*Por Marcelo Rock

“...Se eu não vir o sinal dos cravos em suas mãos, e não puser o meu dedo no lugar dos cravos, e não puser a minha mão no seu lado, de maneira nenhuma o crerei...”. (Jo 20, 25)

Quando São João disse: “... O mundo jaz no maligno...” (1 Jo 5, 19), é porque sabia exatamente o que estava dizendo. Quando Constantino grita: “... Um império, um imperador, uma única religião...”, era o inicio de uma guerra pelo poder e sequestro das almas dentro do campo religioso. Mas não somente isso (o que já é demais), também de todos que não professam a mesma fé. Fé, pra que precisamos dela? Bom, a fé natural é aquela que faz acreditar que ao sentar numa cadeira ela não vai quebrar, e a sobrenatural pra maioria é a que me faz acreditar que a cadeira é sagrada.

A religiosidade de todas as formas parece materializar o que Jesus disse sobre o mal que viria. A cerimonia, o rito, a pajelança, a água, o sangue, o sacrifício, a oferenda, candelabro de 18 hastes, vela colorida, xale, cocar, manto, cachimbo... Tudo coisa inventada por homens, prometendo aproximar o homem do divino. A religião é sempre o desejo humano de fazer por Deus aquilo que Ele em Cristo já fez pelo humano, e na intensão de fazer, de aproximar, acaba separando, afastando, porque injeta santidade em um objeto, e as cerimonias e os objetos passam a ter mais valor e significado que o próprio homem. É o mesmo que contradizer a Palavra quando Jesus disse a mulher da Samaria: “... nem naquele monte, e nem neste, mas os verdadeiros adorarão em espirito...” (Jo 4, 21. 24).

O fato de usar a Bíblia como pen-drive sagrado é o mesmo ritual de qualquer outra religião de usar qualquer livro. Ela é um acessório, um periférico que fica fora de mim, não vem on-boad, e que conecto quando preciso. É a representatividade no objeto e a redução de um deus na mediocridade de uma caixa, de um livro que parece que dita e prevê o que Deus irá fazer, dizer, pensar. Isso é a invenção de outro Deus. E nessa nossa imaginação fértil, esse ser que criamos, não sai uma vírgula fora do que está escrito. Como se esse “manual de instruções” sobre ele, fosse maior do que ele mesmo. Com isso, mediocrizamos Deus e nós mesmos, numa fé que não transcende nada. É como a atrofia bonsai: plantar uma árvore que seria enorme, frondosa, frutífera, em uma pequena caixa. Depois poda-la dia após dia, para que ela seja formatada e limitada á aquele tamanho, simplesmente porque é “bonitinho”.

A formatação das religiões quer sempre justificar tudo pelo simples rito. Aliás, em alguns casos esses ritos não são tão simples, e o mais interessante é que pra uma alma errante, isso é até mais atraente, visto que não tem coragem ou morre de medo de conhecer a liberdade, ou conhecer a verdade que liberta. Não sabe lidar com o livre arbítrio, tem sempre que ter uma regra pra monitorar sua vida, uma obrigatoriedade pra dar chão e ao mesmo tempo, alivio de consciência.

A fé em coisas palpáveis é uma fé infanto-juvenil, que precisa do aparato físico pra se materializar. Porém, a fé nada tem de material, mas sim de espiritual. E quando ela não acontece no plano espiritual, então ela é morta, porque depende de lugares e objetos pra ser praticada, exercida e concretizada. Crer somente parece não ser suficiente, tem que ostentar.
Então precisamos de templos enormes, de estruturas gigantescas, pra acolher a fé, pra exercitar a fé. Quanto maior o templo, mais bonito, maior parece ser a fé num Deus representado pelo concreto, o divino passa a ter cheiro de argamassa. Crença de grandes salões, fé de galeria, paixão de alvenaria, religiosos do ar-condicionado. A fé sobrenatural, espiritual não precisa de livros sagrados e nem de locais ou rituais, ela deve existir no coração, ou seja, na mente, e se materializar por meio das atitudes. Ser melhor ao semelhante, por exemplo; ama-lo ou pelo menos, respeita-lo, independente da fé que professa ou de que lugar do mundo veio se tem dinheiro ou não... Esse é o desafio da fé, e sem essa fé, que não vê nada em sua frente, mas continua acreditando, que não é palpável, que não se materializa em objetos, mas na atitude, essa é a única que pode agradar á algum Deus.

Se você não “comer o livrinho”, ou seja, internalizar essa crença, ela não passa de fé natural. É como aquele tiozinho que só tira o carro da garagem no Domingo, o famoso domingueiro, ou sabatista. Uma fé barbeira, que provoca engarrafamento. Só pratico nos finais de semana, fora disso, não há nada em mim que identifique. Parece que ela não combina com meu dia-a-dia.
No fundo gostamos de ser controlados, parece que com uma formula uma receita, podemos sentir a garantia que tudo vai dar certo no forno que cozinha, que assa o vaso. Mas esquecemos de que não somos a pessoa que faz o vaso, quem faz é o oleiro. Só que não estamos dispostos a deixar que ele trabalhe. Nossa fé vai até a página dois.


O mundo da fé, parece ter se transformado, se esforçado pra cumprir a profecia de Jesus que disse que isso aqui já “tava moiado” desde a época dele. De lá pra cá só piorou, então, justamente aquilo que seria a cura pras nações, virou a doença, ou um vicio, dependência psico-espiritual, um comprimido, a dosagem pra um sustento de seis dias, depois, corro pra tomar mais uma nova dose. Um efeito placebo, num certo lugar, construído pra isso, com objetos na mão e movimentos que provem pra mim mesmo e para os outros que estão me olhando, inclusive pra Deus, que eu estou em comunhão, ufá! Isso tudo dentro de um embrulho bonito, com algo podre dentro. Maligno até a última dose, sem medo de infectar á tudo e á todos, exalando cheiro de enxofre no planeta. Mas num tem problema, a embalagem é bonita, e depois a gente joga um perfume pra disfarçar o cheiro e pronto. O importante é o que as pessoas veem.

* Colaboração para o Blog.

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O Justo x O Malandro



Por Marcelo Rock* 

O Reino de Deus não é comida nem bebida, e sim justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Rm 15, 17).

Já dizia Bezerra da Silva, que “Malandro é malandro, e mané, é mané”. Quem nunca ouviu falar do jeitinho brasileiro? Acredito que esse estereótipo se estabeleceu como um traço de nossa característica. Muita gente acredita que corrupção é apenas aquela coisa vergonhosa que os políticos e executivos, “distantes de nossa realidade”, cometem contra as instituições governamentais ou privadas.  E que o jeitinho brasileiro seja uma força um talento para sobreviver á tantas mazelas e dificuldades promovidas em nosso país. Uma ginga para ludibriar e saber resolver situações adversas, um poder de adaptação, a dança do malandro, do esperto, da pessoa que se vira e que não desiste nunca.

Uma rápida paradinha na vaga de deficiente, uma ultrapassagem pelo acostamento, colocar o fone de ouvido e fingir estar dormindo para não dar lugar no transporte público, colar na prova, incluir o nome num grupo para ter nota no trabalho sem tê-lo feito, trabalhar apenas quando o chefe esta por perto, perceber que veio dinheiro a mais no troco e não devolver,ter dois números de celular para não ser pego pelo cônjuge... E no meio cristão? Orar mais alto para que todos achem que você é mais fervoroso, sentir raiva e achar que aquela pessoa que não vai á igreja ou falta muito, por não estar em comunhão ou perdeu a fé, acreditar que é mais “crente” ou mais “santo” por "falar" em línguas ou por fazer tudo certinho, ser eficiente ao apontar a falha, o erro, ou exigir justiça, enfim, quando alguém cometer qualquer uma dessas ações citadas acima.

Por que criticamos os corruptos, mas praticamos a corrupção? Será que é falta de oportunidade ou caráter? E se tivéssemos a oportunidade de nos corromper? Será que todos tem um preço? Qual o tamanho da sua ambição?

Pois é, a corrupção tem várias formas, e esta em muitos lugares. É claro que os impactos desses pequenos delitos na sociedade são ínfimos se comparados ás práticas de desvios de milhões de reais dos cofres públicos, de empresas contratadas por meio de alianças, conchavos, acordos, esquemas. E como facilmente pudemos perceber ultimamente, a corrupção não se restringe a um partido político.

Mas e o contrário disso? Você já se sentiu criticado ou mesmo considerado “mané”, babaca, pouco esperto, boca-aberta, bocó, por ser educado, gentil, por não revidar a ofensa, por não ir á forra, por não querer discutir, por deixar que passem na sua frente, por não ser oportunista, por não querer levar vantagem, você já se sentiu um idiota, te chamaram de trouxa ou fraco por essas coisas?

Aquele profeta que não tinha onde recostar a cabeça, aquele homem do povo e das multidões, que curava, mas não queria reconhecimento, o filho de um carpinteiro que se despojou de toda glória e mergulhou em uma “missão suicida”. Sem glamour, sem plumas e paetês, sem holofotes, nem dublê pra horas difíceis, disse o seguinte: “... Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no Reino dos Céus...” (Mt 5, 20).

Não vejo isso como uma ameaça a salvação da alma, mas sim um desafio. Um desafio para sermos melhores, não nos deixar levar pelo ranço e a pressão de uma sociedade com sérios problemas de ética, e caráter. O não conformar-se com este mundo se aplica aqui também, no momento em que você pode ser justo, correto, mesmo quando ninguém esta olhando, e uma justiça que excede, não é uma ação vingativa, revoltada e destrutiva.

E que tal ser melhor hoje, agora? Contribuir para a melhora dos que estão á sua volta naquilo que estiver ao alcance? Quando vemos a injustiça, somos os primeiros a pular com o dedo em riste, por ver pouca justiça se concretizar em nossos dias. Mas isso não é desculpa para sermos incorretos.

Sabemos que a proposta do evangelho é radical. E por vezes já fomos motivo de piada por querer ou fazer o que é certo. Mas esta é a grande luta, a grande resistência. Amar num mundo sem amor, ser justo num mundo sem justiça. O convite de Jesus é de ir além do óbvio, do automático, da zona de conforto, daquela mania de dar um jeitinho em tudo, de querer cortar caminho, de ser malandro.

Na verdade, ser justo, ter caráter, não pode depender do próximo e nem das situações. Sem essa conversa de minha educação depende da sua. Isso é coisa de gente pequena, mesquinha. Queremos um país justo? Mudemos á nós primeiro, não podemos acreditar que ser justo é ser Mané, apesar de ser esta a visão da nossa sociedade.


Jesus nos desafia a crescer como cidadãos, como namorados, maridos, esposas, pais, filhos, irmãos, vizinhos. Mais á frente, ainda no Evangelho de Mateus, Jesus fala sobre a mudança de atitude e a escolha que demos fazer. Fala de um caminho, uma porta estreita onde são poucos que escolhem passar por ela. (Mt 7, 12-14). Esse caminho não tem glamour, “likes”, “self´s”, nem reconhecimento; e poucos compartilham. Mas é o caminho dos que acreditam que é possível uma mudança, uma vez que “o justo viverá pela fé” (Gl 3,11b). 

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Por Uma Hermenêutica Negra



"Pode o negro mudar a cor da sua pele?" (Jr 13, 23)

Pretos e pretas nascem e morrem pretos. Estive auspiciando os comentários pejorativos sobre as missas afro realizadas por dioceses de camaradas nas redes sociais esse final de semana, e pude observar uma falta de exegese bíblica e de conhecimento nas Encíclicas do catolicismo romano, na qual vi a necessidade de blogar sobre. 

No documento SC (Sacrosanctum Concilium), está legitimado o rito afro. Nos parágrafos 38 e 39 está legitimado a adaptação litúrgica: "Mantendo-se substancialmente a unidade do rito romano, dê-se possibilidade às legítimas diversidades e adaptações aos vários grupos étnicos, regiões e povos, sobretudo nas Missões, de se afirmarem, até na revisão dos livros litúrgicos; tenha-se isto oportunamente diante dos olhos ao estruturar os ritos e ao preparar as rubricas; Será da atribuição da competente autoridade eclesiástica territorial, de que fala o parágrafo 22 § 2 (Vide esse tópico se achar necessário), determinar as várias adaptações a fazer, especialmente no que se refere à administração dos sacramentos, aos sacramentais, às procissões, à língua litúrgica, à música sacra e às artes, dentro dos limites estabelecidos nas edições típicas dos livros litúrgicos e sempre segundo as normas fundamentais desta Constituição." (SC 38-39). A musicalidade afro se legitima no mesmo documento, no parágrafo 119: "Em certas regiões, sobretudo nas Missões, há povos com tradição musical própria, a qual tem excepcional importância na sua vida religiosa e social. Estime-se como se deve e dê-se-lhe o lugar que lhe compete, tanto na educação do sentido religioso desses povos como na adaptação do culto à sua índole, segundo os parágrafos 39 e 40. Por isso, procure-se cuidadosamente que, na sua formação musical, os missionários fiquem aptos, na medida do possível, a promover a música tradicional desses povos nas escolas e nas ações sagradas." 

Mas voltando ao inicio do texto, é importante compreender dentro das Sagradas Escrituras o papel de pretos e pretas. Vamos, por meio de uma ordem cronológica, descreverei sobre quem são, o que fizeram e sua importância. 

Na Palavra, toda vez que ler Cush, Cuch, Cusi ou algo similar, entenda-se que está lendo sinônimo de tés escura ou preto. A primeira vez que aparece na Bíblia é em Gn 2, 13, ao descrever o Rio Gion, que cobria a "terra de Cush". Aqui, descreve o local como terra de pretos, logo, associa-se a África. No texto Criar e Evoluir: Tempo Teológico, há uma associação com o Rio Nilo, mas em outro tipo de exegese. Mas continuando, de acordo com o sinólogo e teólogo Richard Wilhelm, Cam (em algumas traduções Cão), o filho de Noé, era o pilar da raça negra após o Dilúvio (Tao Te King - Livro do Sentido da Vida, Pág. 12). Tendo esse alicerce, fácil justificar que seu primeiro filho, Cush (Gn 10, 6) era preto. O neto de Cam, filho de Cuch, Nenrod, segundo as Escrituras, foi o "primeiro valente da terra. Foi um valente caçador aos olhos do Senhor" (Gn 10, 8, 9a). A palavra caçador, é um adjetivo que pode significar aquele que pratica a caça e também a um soldado. Se olharmos por uma segunda ótica, a exegese bíblica pode ser "como Nendod, valente soldado diante do Senhor." Dali surgem também os exímios arqueiros, Lud, filhos de Mesraim (Gn 10, 13). Em Jr 46, 9, há referência deles, mas até mesmo a Bíblia do Peregrino, grande enciclopédia de estudos pastorais, não há referência nenhuma sobre os ludianos na nota de rodapé. A partir da árvore de Gn 10, encontramos referência para outros pretos e pretas, que alguns serão descritos mais a frente. 

Avançando, vemos Moisés presenciar o primeiro ato racista bíblico. Em Nm 12, 1, mostra Aarão e Maria tendo preconceito com sua esposa cuchita durante a peregrinação do deserto. A ira de Deus surge sobre Maria, que imediatamente, ficou isolada por 7 dias do acampamento do povo de Deus com uma doença contagiosa (Nm 12, 9-15). Mas vemos também mulheres com status de Rainha. A Rainha de Sabá (1Rs 10, 1-13 ou 2Cr 9, 1-12), esteve com o Rei Salomão em comitiva, por admirar sua grande sabedoria. Houve uma troca de gentilezas entre rei e rainha de acordo com as Escrituras, e de acordo com o Kebra Negast (livro etíope que conta a dinastia salomônica), afirma que Menelik I, fundador do Império Abissino, foi fruto dessa união real, que muito influencia na cultura etíope. Tanto que desde 980 a.C, os imperadores salomônicos herdam o título de Leão de Judá.  No Sl 68, 32, diz que a "Etiópia estenderá as mãos para Deus", e no Sl 72, 10b, que os reis de Sabá tem 'dons'. O livro do Cântico dos Cânticos (ou Cantares de Salomão) faz referência a cor de pele preta: "Sou morena, mas formosa, ó filhas de Jerusalém, não reparem se eu sou morena, foi o sol que me queimou" (Ct 1, 5-6a). Por ser atribuído ao Rei de Israel, e por ser uma entrega de um homem e mulher embriagados de paixão e extasiados de amor, nos mostra claramente que Menelik I pode ser mesmo fruto dessa relação, com referências nossas (cristãs). 

De acordo com o profeta Isaías, a Etiópia era "uma nação de gente alta e bronzeada, a um povo temido em toda parte, a um povo forte e dominador" (Is 18, 2). Essa referência mostra o porque a Etiópia sempre fora um Estado independente, mas, o fóssil social de achar que a África é um continente pobre e a escravidão durante as grandes navegações, nos faz pensar que ao lermos sobre Ebed-Melec (Jr 38, 7-13), um eunuco etíope, pensamos em um serviçal, escravo. Mas basta analisar com base no versículo de Isaías: será que um rei iria ouvir um simples escravo e seus conselhos, e tiraria o profeta Jeremias do poço? E será que Deus mandaria o próprio profeta dizer para ele (Ebed-Melec), que teria sua vida poupada por ter confiado no Senhor (Jr 39, 16-18)? Não! Ebed-Melec tinha cargo de mais alta hierarquia, e salvou o profeta Jeremias da morte. Ainda dos profetas, temos Sofonias, filho de Cush, ou seja, filho de negros. Profeta de Deus preto, que guiou o "resto de Israel", o povo que não se corrompeu (Sf 9, 12-13).

Já no Novo Testamento, temos passagens fortes e marcantes pelo Evangelista São Lucas no livro dos Atos dos Apóstolos. Em 8, 26-39, ele batiza o etíope ministro da rainha de Candace, e ali inclusive, quebrou a lei do deuteronômio, pois ele era um etíope, e segundo a lei, pessoas com testículos esmagados não pode participar da assembléia de Deus (Dt 23,2). E outra, muito marcante para nós cristãos, está em 13, 1, fazendo referências a Simeão, conhecido como Negro, e Lúcio, da cidade de Cirene. Quanto a cútis de Simeão, não há dívidas, já Lúcio, por ser cireneu (atual Líbia), poderia não ser preto, mas era africano, porém, sua cor de pele não era branca. Quem eram eles? Profetas e mestres da Igreja de Antioquia, juntamente com Paulo e Barnabé. Novamente fazendo referência a Bíblia do Peregrino, nas rodas de rodapé nada de fala dos profetas pretos...

Cheguei ao final da postagem. Essas são algumas referências de pretas e pretos na Bíblia, mas ainda restam duas. Uma delas está em 3 Evangelhos sinóticos Mt, 27, 32; Mc 15, 21; Lc 23, 26: é Simão, da Cidade de Cirene. Assim como disse sobre Lúcio, se ele não era preto, era africano. Na Epístola aos Romanos, São Paulo diz que Rufo foi o eleito do Senhor (Rm 16, 13). Rufo é o filho do cireneu, relatado em Mc 15, 21. Mais um africano (se não preto) como referência bíblica de salvação. 

Mas o mais chocante mesmo, é Jesus Cristo. A figura de pele clara, cabelos encaracolados e olhos claros está totalmente antagônica a Palavra. O profeta Isaías o descreveu assim: "Ele não tinha aparência nem beleza para atrair o nosso olhar, nem simpatia para que pudéssemos apreciá-lo" (Is 53, 2). Porque Isaías o descreve assim? Jesus era preto! Basta ler a revelação de São João no livro do Apocalipse ao descrever Jesus Cristo: "os pés eram como bronze no forno, cor de brasa" (Ap 1, 15) e na visão do trono de Deus, quem sentava nele "parecia uma pedra de jaspe e coralina" (Ap 4, 3). Mais uma vez falando da Bíblia do Peregrino, diz na nota de rodapé que as pedras não parecem demonstrar algo especial, apenas ilustrativo. Se for para ilustrar, a Teologia do Gueto imagina que Jesus seria como um diamante, não como Jaspe...

Voltando a referência de Jeremias no inicio do texto, com o passar dos milênios a igreja fez com que Jesus, preto, mudasse sua cor de pele, ou será que estamos enganados? Tente ler a Sagrada Escritura por uma hermenêutica dos pretos, e tire suas conclusões...

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